A Crise da Fictor e Seus Credores
A Fictor, empresa que fez uma proposta de compra do Banco Master no final do ano passado, agora está enfrentando uma crise severa após o pedido de recuperação judicial aceito parcialmente pela Justiça. Com cerca de 13 mil credores, a Fictor possui uma dívida total estimada em R$ 4,2 bilhões. O cenário preocupante se intensificou após a retirada de R$ 2,1 bilhões em investimentos, o que representa 71% do valor total depositado por seus clientes até o final de janeiro.
Entre os credores estão até mesmo o time de futebol Palmeiras, que rescindiu seu contrato de patrocínio com a empresa, levando a uma dívida de R$ 2,6 milhões. Esse rompimento ocorreu poucos dias após a Fictor solicitar a recuperação judicial. O clube havia firmado um contrato de patrocínio de R$ 25 milhões anuais, mas a falta de clareza nos pagamentos gerou desconfiança.
Investigação e Controvérsias
O pedido de recuperação judicial enviado à Justiça detalha uma lista de credores de 122 páginas, mas já enfrenta contestação. O juiz responsável determinou que a Fictor apresente, em cinco dias, a lista nominal dos credores com valores e classificações atualizadas. Entre as entidades mencionadas estão a Sefer Investimentos DTVM e a American Express, que negaram a condição de credores. De acordo com a Sefer, a empresa atua como gestora e não como credora, o que levanta dúvidas sobre a veracidade dos dados apresentados pela Fictor.
Além disso, a Sefer está sob investigação da Polícia Federal na Operação Compliance Zero, que investiga possíveis fraudes financeiras. O caso se complica ainda mais com a revelação de uma offshore ligada à Sefer que registrou um CNPJ logo após a liquidação do Banco Master.
Impacto nos Credores e Expectativas Futuras
Um levantamentos realizado por Júlio Moretti, CEO da Neot, indica que o estado de São Paulo abriga a maior parte dos credores, totalizando 8.921, seguido por Minas Gerais com 1.136 e Rio de Janeiro com 950. Em contrapartida, estados como Acre e Roraima têm apenas quatro e um credor, respectivamente. A maior parte dos credores, cerca de 11.549, são pessoas físicas, com créditos a receber totalizando R$ 2,54 bilhões.
Esses investidores foram atraídos pela proposta de rendimentos fixos que prometiam até 2% ao mês, um retorno substancial em comparação ao que grandes bancos oferecem, que fica em torno de 1% ao mês. No entanto, com a crise em curso, muitos agora se perguntam se algum dia receberão seus investimentos.
Recuperação Judicial e Implicações Legais
Os investidores devem se preparar para uma longa espera, pois, em um cenário de recuperação judicial, eles se enquadram como credores quirografários, ou seja, sem garantias reais. A Fictor, por sua vez, disse que qualquer discordância sobre os créditos deve ser apresentada ao administrador judicial que será nomeado.
É importante ressaltar que a classificação dos investidores mudou. Inicialmente considerados sócios nas Sociedades de Crédito em Participação (SCPs), agora são tratados como credores. A Fictor anunciou unilateralmente o distrato dos contratos, uma decisão que gerou incertezas e questionamentos sobre sua legalidade.
Arthur de Paula, advogado especializado em resolução de conflitos, destacou os problemas técnicos que cercam essa decisão. Ele explica que para haver o distrato, o consentimento de todas as partes envolvidas é essencial, algo que não se observou nesse caso. Isso deixa os investidores em uma situação incerta até que a Justiça aprove a recuperação e defina quando e como receberão os valores devidos.
