A Trajetória de um Pioneiro
Em 1968, Frederick Wiseman se preparava para lançar seu segundo documentário, “High School”, e não poderia deixar de sentir apreensão. Seu primeiro filme, “Titicut Follies”, havia sido um verdadeiro desafio. Este trabalho, que retratava a vida de pacientes do Hospital Estadual Bridgewater para Criminosos Insanos, causou polêmica ao ser filmado sem narrador ou entrevistas, deixando que o próprio público construísse sua interpretação. Mesmo com o consentimento dos envolvidos e da administração do hospital, a obra enfrentou tentativas de proibição por parte do governo de Massachusetts, que alegou violação de privacidade e dignidade. No entanto, Wiseman sempre defendeu que a razão real por trás da tentativa de censura era a exposição das condições de vida dos internos. O filme, que foi exibido pela primeira vez no Festival de Cinema de Nova York em 1967, chegou a ser um marco na história do cinema, tornando-se o primeiro a ser proibido nos EUA por motivos que não envolviam obscenidade ou segurança nacional, só sendo liberado ao público em 1991.
A Impactante Abordagem de Wiseman
Documentários frequentemente exploram verdades difíceis de engolir. Contudo, o impacto de “Titicut Follies” e a relevância de Wiseman, que nos deixou na última segunda-feira aos 96 anos, se deve ao fato de que ele não se limitou a apresentar um único evento ou narrativa simplificada. Ao contrário, suas obras revelaram o cotidiano de espaços antes inexplorados, reafirmando uma verdade essencial: as ações dos indivíduos são intimamente ligadas às instituições que os cercam. Essa conexão se tornaria um tema recorrente em sua filmografia, que abrange 43 documentários ao longo de mais de cinco décadas.
Embora alguns possam supor que Wiseman tivesse uma agenda política, sua abordagem não se baseava em teses predefinidas. Ele chegava a cada novo projeto com uma câmera, um colaborador e um olhar curioso, buscando observar o que se desenrolava à sua frente. Como ele mesmo afirmou em 2018, “não há razão para fazer um filme se já tenho uma tese”. Os períodos de filmagem variavam de quatro a 12 semanas, e a obra final serviria como um relato do aprendizado adquirido durante o processo.
A Essência de um Grande Documentarista
A proposta criativa de Wiseman se revela em toda a sua carreira, desde “Titicut Follies” até “Menus-Plaisirs — Les Troisgros”, seu filme mais recente, lançado em 2023. Ele tinha um gosto especial por observar as dinâmicas humanas, capturando interações que aconteciam em meio a refeições, rituais religiosos, eventos esportivos e conversas informais. Sua obra inclui registros de sussurros em leitos de hospitais, piadas entre médicos e discussões em clubes comunitários. Wiseman tinha o dom de transformar reuniões em experiências cinematográficas fascinantes, revelando o quão divertidas e significativas podem ser as interações humanas no mundo contemporâneo.
Assistir a um filme de Wiseman pode dar a impressão de uma objetividade calculada, quase sem intervenção do narrador. No entanto, o papel do narrador silencioso é, na verdade, sua própria visão de mundo, que nos convida a mergulhar em sua percepção.
A Duração e o Tempo em Seus Documentários
Cineastas frequentemente brincam sobre a duração extensa de suas obras; de fato, alguns de seus documentários mais longos, como “Near Death” com quase seis horas, desafiam a paciência do espectador. Mas, ao entrar no universo de Wiseman, é fácil perder a noção do tempo, pois cada filme é repleto de momentos que cativam e revelam algo novo e intrigante.
“Há grande drama, tragédia e comédia na experiência cotidiana, que, se você tiver a sorte de estar presente quando ela acontece, pode usar no cinema”, compartilhou ele em uma interação no Reddit em 2015. Esse é o verdadeiro milagre de sua obra: Wiseman estava sempre ali, registrando os altos e baixos da vida, mesmo nas experiências mais comuns.
A Imortalidade Através da Observação
Pessoas filmadas por Wiseman fazem parte de um todo maior. Sua intenção não era criar histórias isoladas, mas sim mostrar que as ações de cada um têm um impacto no coletivo. Ao longo de mais de 50 anos de carreira, Wiseman conferiu a essas figuras uma espécie de imortalidade, ao mesmo tempo que nos instigou a nos importar com suas vidas no presente. Elas podem ser nossos vizinhos, mesmo que nunca tenhamos tido contato. O seu olhar cuidadoso nos proporciona uma experiência cinematográfica rica e envolvente, que evoca uma profunda sensação de amor pela condição humana.
