O Crescimento da Desinformação no Telegram
Um estudo realizado pelo Laboratório de Inteligência Artificial Recod.ai da Unicamp revelou a gravidade da desinformação disseminada em grupos do Telegram. As mensagens enganosas estão proliferando, com um banco de dados que acumula 5,5 terabytes de informações, coletadas de mais de 71 mil usuários em 119 grupos. Essa pesquisa expõe como as redes organizadas e o uso de robôs influenciam a recusa à vacinação, elevando preocupações sobre a saúde pública no Brasil.
Os pesquisadores destacam que o Telegram é um ambiente propício para a desinformação, favorecido por sua menor moderação e maior anonimato em comparação a outras plataformas. “A coleta de dados em outras redes sociais é mais restrita, tornando o Telegram um refúgio para esse tipo de informação falsa”, observa Christiane Versuti, pós-doutoranda e uma das autoras do estudo.
Estratégias de Disseminação e o Papel dos Robôs
A estrutura de disseminação das mensagens nos grupos de Telegram foi identificada como organizada, com canais que desempenham funções específicas. “Existem canais dedicados exclusivamente à desinformação, outros que transmitem e recebem informações, e aqueles que apenas recebem”, explica Michelle Diniz Lopes, doutoranda e integrante da pesquisa. A presença de robôs na disseminação das mensagens foi notada, evidenciando uma estratégia coordenada para alavancar a recusa da vacinação.
Práticas Ilegais e Potencial Perigo
Os grupos não se limitam apenas à desinformação; também são espaços para práticas ilegais. “Estamos observando a ocorrência de crimes, como a venda de carteirinhas falsas”, alerta Versuti. Essas carteirinhas são utilizadas para driblar exigências sanitárias, expondo a população a riscos desnecessários.
Além disso, são promovidos “protocolos alternativos” e supostos tratamentos pós-vacinação, todos sem respaldo científico. A venda de cursos, suplementos e hormônios promete melhorias na saúde, mas desvia os usuários dos cuidados médicos tradicionais, o que pode colocar em risco a saúde das pessoas.
A Importância de uma Comunicação Acessível
Para combater a desinformação, a equipe de pesquisadores defende que não basta apenas remover conteúdos ou punir os responsáveis. É fundamental repensar a forma como a informação científica é apresentada ao público. “Precisamos de uma comunicação mais compreensiva e empática”, sugere Ana Carolina Monari, também pós-doutoranda e jornalista. Muitos participantes desses grupos se sentem marginalizados e menosprezados no debate público, buscando um espaço onde suas opiniões possam ser ouvidas sem serem rotuladas como ignorantes.
Próximos Passos na Pesquisa
Atualmente, a equipe se dedica à coleta e integração de dados de outras plataformas, como Instagram, YouTube e X (ex-Twitter), a fim de entender melhor a propagação da desinformação. Eles também estão desenvolvendo modelos de inteligência artificial para classificar automaticamente conteúdos, com ênfase na identificação de diferentes tipos de desinformação.
Outro objetivo é avançar na detecção de conteúdo gerado por inteligência artificial, incluindo imagens e vídeos falsos que respaldam narrativas antivacina. A meta é criar um dos primeiros bancos de dados do mundo focados nessa classificação. “Um desafio é distinguir entre mensagens que podem ser mal interpretadas como desinformação, como ironias ou piadas, que podem ser mal analisadas automaticamente”, comenta Leopoldo Lusquino Filho, colaborador do Recod.ai.
No médio prazo, os pesquisadores ainda buscam aprofundar a análise sobre como diferentes públicos, incluindo idosos e comunidades indígenas, consomem informações. “Os dados que estamos coletando permanecerão acessíveis ao público, promovendo um compartilhamento transparente do conhecimento científico”, conclui Michelle Diniz Lopes.
