Evento Religioso como Manifestação Política
A Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo bispo Edir Macedo, planeja um expressivo ato de força no dia 3 de abril, na Sexta-feira da Paixão. Apesar de não ter sido priorizada nas negociações políticas recentes com o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), a denominação pretende alugar nove estádios pelo Brasil para o evento “Família ao Pé da Cruz”. As arenas escolhidas incluem o icônico Maracanã (RJ), a Neo Química Arena (SP) e o Pacaembu (SP), além de outras importantes praças esportivas em diferentes estados. A expectativa é lotar esses locais com fiéis para celebrar a Páscoa, enquanto também transmite uma mensagem clara de força e influência, refletindo o poder da única igreja brasileira que detém um partido político — o Republicanos, sob a liderança do deputado licenciado Marcos Pereira.
O bispo Renato Cardoso, genro de Macedo e considerado seu sucessor, está atribuindo um tom político ao evento. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, Cardoso descreve a ocasião como “a maior lata de conservas da família”, um comentário irônico em resposta à ala “Família em Conserva” do desfile da Acadêmicos de Niterói, que precedeu a atual administração de Lula. Essa referência surge em meio a dados recentes do Datafolha, que indicam que apenas 17% dos eleitores se sentiram ofendidos com a sátira, embora líderes evangélicos continuem utilizando o ocorrido para desgastar a imagem do governo. Uma pesquisa da Quaest revelou que 61% dos evangélicos desaprovam o governo Lula, enquanto apenas 33% demonstram aprovação.
Descontentamento com Alianças Políticas
O Republicanos, que se posiciona mais à direita, tem sido alvo de descontentamento tanto do PT quanto do PL, que buscam atrair a atenção de outros partidos do Centrão. Enquanto Flávio Bolsonaro se esforça para formar uma aliança com a federação União Brasil e PP, considerando oferecer a vice para nomes como Romeu Zema, do Novo, ou Ratinho Jr., do PSD, o governo Lula tenta incluir o MDB em sua chapa presidencial. No cenário do Rio de Janeiro, berço da Universal, a igreja tem sido deixada de lado, com o prefeito Eduardo Paes (PSD) e o secretário das Cidades, Douglas Ruas (PL), anunciando candidaturas sem dar espaço ao Republicanos.
A prática de alugar estádios para eventos religiosos não é nova, porém a magnitude dessa reserva, com tantos estádios ao mesmo tempo, é uma novidade. Os custos também são significativos. Por exemplo, a Neo Química Arena, pertencente ao Corinthians, cobra valores que podem chegar a R$ 2,9 milhões, como no caso de um show gospel realizado pela Igreja Batista Lagoinha. O Pacaembu, agora sob administração privada, tem tarifas de R$ 1,25 milhão para eventos em seu gramado.
Investimentos Públicos em Eventos Religiosos
Historicamente, eventos religiosos têm recebido auxílio de verbas públicas. O show da Lagoinha na Neo Química Arena, por exemplo, contou com um aporte de R$ 4 milhões da prefeitura de São Paulo. Já para o evento da Universal, o governador do Rio, Cláudio Castro, destinará R$ 5 milhões para cobrir custos de aluguel e estrutura do “Família ao Pé da Cruz”.
A relação entre Lula e a Universal tem sido complexa, marcada por altos e baixos. Durante os anos 80 e 90, Macedo não hesitou em atacar a figura do petista, chamando-o de “demônio” e associando-o a práticas religiosas que a igreja condena. Nos anos 2000, houve uma aproximação significativa, com apoio tanto a Lula quanto à ex-presidente Dilma Rousseff em suas campanhas eleitorais. Apesar de ter apoiado Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022, e de possuir influência considerável em São Paulo, o Republicanos busca agora uma postura neutra nas eleições, focando em competições estaduais, como a corrida eleitoral em Minas Gerais, onde o senador Cleitinho Azevedo é o candidato mais forte.
Desafios no Cenário Político do Rio de Janeiro
O futuro político do Republicanos no Rio de Janeiro, no entanto, permanece incerto. A possibilidade de uma candidatura própria se apresenta, mas diversos obstáculos dificultam essa viabilidade. Recentemente, o ex-prefeito de Belford Roxo, Waguinho Carneiro, demonstrou sua intenção de concorrer ao governo, enquanto a sigla mantém diálogos com o psiquiatra e influenciador Ítalo Marsili, que deve decidir sua filiação nos próximos dias.
Um cenário de disputa interna também pode se desenvolver dentro da Universal, com o ex-prefeito e deputado federal Marcelo Crivella buscando retornar ao Senado. Conhecido por sua ascensão como defensor de Jair Bolsonaro, Crivella está em campanha e deseja ser um candidato forte, apesar da resistência da cúpula da Universal, que prefere que ele se concentre em conquistar votos para a Câmara dos Deputados. As tensões entre esses interesses podem moldar o futuro político da igreja brasileira nos próximos meses.
