Um Ano Sem o BDMG Cultural
Há exatamente um ano, Minas Gerais se despediu do BDMG Cultural, um dos pilares da cultura mineira. A decisão do governo Zema de extinguir essa instituição causou um impacto severo no cenário cultural do estado, especialmente na música instrumental. Desde a sua fundação, há 35 anos, o BDMG Cultural desempenhava um papel crucial ao fomentar a produção artística, apoiar a criação e construir um legado que se estendia por diversas vozes e histórias.
Fundado em 1988, o BDMG Cultural se consolidou como uma entidade estratégica para a vida cultural de Minas Gerais, com a missão de promover o desenvolvimento local em suas múltiplas dimensões. O instituto contribuiu ativamente para a integração da arte com a memória e o desenvolvimento, abrangendo segmentos como música, artes visuais, teatro, dança, literatura e patrimônio histórico. A sua importância estava intimamente ligada às diretrizes do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, até que, na gestão atual, uma decisão abrupta colocou fim a um trabalho de décadas.
Contradições de um Fechamento
É notável a contradição entre a extinção do BDMG Cultural e a postura de outras instituições financeiras, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, que continuam a investir na cultura. A cultura é, afinal, um direito garantido pela Constituição e uma estratégia eficaz de visibilidade para as marcas. O investimento no BDMG Cultural, de R$ 5 milhões anuais, muitas vezes através de incentivos fiscais, gerava um retorno positivo tanto para o banco quanto para a sociedade, apoiando a carreira de artistas emergentes e oferecendo uma ampla gama de ações institucionais.
O fechamento do BDMG Cultural, noticiado como uma decisão do Conselho do banco, revela a natureza autoritária da administração Zema. Um ato administrativo sem justificativas claras provocou a destruição de um patrimônio construído ao longo dos anos, resultando na perda de projetos editoriais, arquivos virtuais e um acervo cultural valioso.
Ruptura na Economia Simbólica
Entre os muitos legados deixados pelo BDMG Cultural, destaca-se o Prêmio BDMG Instrumental, que, ao longo de 20 anos, lançou uma nova geração de instrumentistas e compositores de Minas. A extinção desse prêmio não apenas interrompeu essa cadeia de apoio, mas também prejudicou a continuidade de um legado musical respeitado no Brasil, com figuras icônicas como Wagner Tiso e Grupo Uakti. O governo Zema parece estar reconfigurando o campo simbólico da música instrumental, descontinuando incentivos preciosos para a criação e experimentação.
Desmonte Cultural e Fragilização das Estruturas Públicas
O fechamento do BDMG Cultural não é um evento isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla de desmantelamento das estruturas públicas que sustentam a cultura como um direito. Essa abordagem antipolítica visa fragilizar as bases públicas da cultura, desarticular redes de apoio e penalizar artistas em início de carreira, em vez de promover a cultura como um direito social universal.
O BDMG Cultural sempre foi um espaço fértil para inovações e experiências artísticas que desafiavam a mercantilização do setor. Seus programas atendiam tanto artistas renomados quanto novos talentos, criando um laboratório de produção estética que afirmava a diversidade cultural como uma potência política. É crucial entender que a cultura não é um simples produto; ela é responsável por moldar identidades e subjetividades. Ao eliminar o BDMG Cultural, o atual governo reafirma uma lógica que ignora o valor transformador da cultura, um espaço onde brotam revoluções e inovações sociais.
A Resistência e o Futuro da Cultura Mineira
Apesar da extinção do BDMG Cultural, as ideias e as vozes que ele ajudou a moldar permanecem vivas entre o povo mineiro. A luta pela valorização da cultura e o chamado à ação em defesa da memória e da identidade continuam. O compromisso com a resistência e a busca por um espaço que reconheça a importância da cultura são fundamentais para a construção de um futuro mais inclusivo e rico em Minas Gerais. A sociedade civil deve se unir para garantir que o estado escute e valorize seu papel na preservação e na promoção da cultura.
Leandro César, músico, integrante do Bloco Então Brilha e membro do Conselho Estadual de Cultura, destaca a importância da memória cultural e a necessidade de lutar por um espaço que respeite as vozes de todos os cidadãos mineiros.
