Aquisição Estratégica da Refinaria da CBL
Um jovem empresário indiano, Anjani Sri Mourya Sunkavalli, de 33 anos e pertencente a uma família influente, está liderando uma significativa aquisição no setor de lítio no Brasil. Apoiado pelo governo de Narendra Modi, ele está por trás da compra de um terço da refinaria da mineradora brasileira CBL, a única fora da China com capacidade para converter rocha dura de lítio em insumos para baterias elétricas. No final de fevereiro, Sunkavalli se reuniu com executivos da empresa em Hyderabad, um dos principais polos tecnológicos da Índia, para formalizar a transação de US$ 40 milhões (aproximadamente R$ 211 milhões).
Embora o valor da negociação seja modesto em comparação às cifras bilionárias geralmente envolvidas no setor, sua importância é inegável. Esse investimento é uma peça-chave nos planos da Índia para desenvolver sua própria indústria de baterias e veículos elétricos ao longo dos próximos anos, ao mesmo tempo que se afasta da dependência do fornecimento chinês. Com a aquisição, Sunkavalli tem a intenção de aplicar a tecnologia da CBL para estabelecer refinarias na Índia, potencialmente com capacidade superior à da unidade brasileira.
O Papel da Altmin na Indústria de Baterias
Sunkavalli é também o fundador da Altmin, uma empresa que busca se tornar a primeira fabricante de cátodos de baterias da Índia a partir deste ano. Para alcançar esse objetivo, a Altmin contará com o carbonato de lítio grau bateria, um produto gerado pelo processamento do mineral na CBL, localizada no norte de Minas Gerais. A empresa ainda se beneficiará de incentivos fiscais concedidos pelo governo indiano, que destinou US$ 4 bilhões para apoiar o desenvolvimento de empresas locais focadas em minerais críticos.
A injeção de capital feita por Sunkavalli na CBL permitirá que a mineradora brasileira amplie sua produção de 2 mil toneladas de carbonato de lítio grau bateria para 6 mil toneladas até 2028. Após essa expansão, espera-se que pelo menos 5 mil toneladas sejam destinadas à Altmin. Embora essa quantia represente uma fração das dezenas de milhares de toneladas processadas por refinarias chinesas, é suficiente para atender à primeira fase de produção da empresa indiana.
“O nosso negócio com a CBL é motivado pela tecnologia e pelo lítio. Precisamos desse mineral para produzir cátodos e também estamos interessados em replicar a tecnologia que temos aqui na Índia”, afirmou Sunkavalli em entrevista à Folha.
Desafios e Oportunidades na Construção de Refinarias
Recentemente, a Altmin firmou um memorando de entendimento com uma estatal indiana para desenvolver uma refinaria na Índia com capacidade de produzir até 30 mil toneladas de carbonato de lítio grau bateria. Inicialmente, Sunkavalli havia tentado convencer o governo indiano a apoiar a construção de uma nova refinaria no Brasil, mas a burocracia e as dificuldades relacionadas ao licenciamento ambiental o levaram a mudar de estratégia. “Na Índia, os governos regionais têm parques industriais onde todas as aprovações já estão pré-aprovadas. Podemos simplesmente adquirir o terreno e iniciar as obras em 15 dias úteis”, explica. Em contrapartida, ele estima que levaria cerca de seis anos para que uma fábrica fosse construída no Brasil.
A História da Parceria entre CBL e Altmin
A colaboração entre a Altmin e a CBL teve início em 2019, quando o projeto de cátodos da empresa indiana ainda se encontrava em fase piloto. Na época, Sunkavalli se viu obrigado a interromper negociações avançadas com o governo da Bolívia para construir uma refinaria no país devido à destituição do então presidente Evo Morales. A Bolívia, que abriga grandes reservas de lítio, enfrenta obstáculos para colocar sua operação em funcionamento.
Sunkavalli é um dos cinco membros do Comitê Executivo para Minerais Críticos do governo indiano. Recentemente, ele se reuniu com Narendra Modi em um evento voltado para o tema e, até pouco tempo, contava com a parceria de uma família influente que investe nas indústrias de mineração e hotelaria.
Impacto Econômico e Perspectivas Futuras
Pelo lado da CBL, a parceria com os indianos se mostra vantajosa, pois garante à mineradora um cliente fixo para o carbonato de lítio a preços de mercado — atualmente, a tonelada é comercializada por cerca de US$ 20 mil (aproximadamente R$ 104 mil). “O aspecto mais positivo desse acordo é garantir um mercado estável, mais do que o aporte financeiro”, destacou Vinicius Alvarenga, CEO da CBL.
A CBL tem como meta triplicar sua produção de minério de lítio para 165 mil toneladas, o que poderia elevar suas receitas para mais de R$ 1 bilhão, considerando a expansão da refinaria. Para isso, a empresa está em busca de novos parceiros, inclusive na Índia.
No final de fevereiro, a estatal SCCL — a mesma que firmou um memorando de entendimento com a Altmin — foi convidada a participar de um processo seletivo para que a CBL escolha um novo sócio. Se a SCCL for a escolhida, os indianos poderão, através da CBL, obter participação em toda a cadeia produtiva de lítio no Brasil.
Atualmente, o Brasil conta com duas mineradoras de lítio em operação e outras três com projetos em desenvolvimento. Entretanto, apenas a CBL refina o mineral; a Sigma Lithium, a maior mineradora do país, realiza apenas a concentração da rocha, um estágio que ocorre antes do refino.
Até outubro de 2022, o governo de Minas Gerais possuía um terço da CBL, abrangendo tanto a mineração quanto o refino. Porém, sob a gestão do governador Romeu Zema (Novo), essa participação foi vendida por R$ 208 milhões aos sócios fundadores da empresa, justificando que a entrada de um novo sócio na mineradora poderia gerar mais investimentos na região, dada a delicada situação fiscal do estado.
