Análise do Impacto Político e Econômico da Indústria de Petróleo na Venezuela
No último sábado, 3 de março, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a possibilidade de abrir o setor petrolífero da Venezuela à atuação de grandes empresas americanas, após a captura de Nicolás Maduro. Esta declaração revela uma nova dimensão na estratégia política e econômica dos EUA, que até então justificava sua presença militar no Caribe com o combate ao narcotráfico e o desmantelamento de rotas de drogas associadas ao regime venezuelano. Contudo, a fala de Trump sugere que interesses energéticos estão igualmente em jogo.
A Venezuela abriga aproximadamente 17% das reservas conhecidas de petróleo mundial, totalizando mais de 300 bilhões de barris — um número quase quatro vezes superior ao das reservas dos EUA, de acordo com dados de entidades internacionais do setor energético. Com a captura de Maduro, o controle sobre essas reservas torna-se um ponto crucial nas discussões sobre as implicações econômicas e geopolíticas da intervenção americana.
O Mercado de Petróleo na Venezuela: Uma Visão Geral
A Venezuela detém a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, estimada em cerca de 303 bilhões de barris, conforme a Energy Information Administration (EIA), a agência oficial de estatísticas de energia dos EUA. Esse volume coloca o país à frente de gigantes produtores como a Arábia Saudita, com 267 bilhões de barris, e o Irã, com 209 bilhões. No entanto, grande parte do petróleo venezuelano é do tipo extrapesado, o que exige tecnologia avançada e investimentos significativos para sua extração.
Nos últimos anos, o potencial da indústria petrolífera não foi plenamente aproveitado devido a uma infraestrutura vulnerável e às sanções internacionais, que limitam a operação e o acesso a financiamentos. De acordo com o Statistical Review of World Energy, a produção de petróleo da Venezuela teve uma queda drástica nas últimas décadas, diminuindo de 3,7 milhões de barris por dia em 1970 para apenas 665 mil barris por dia em 2021. Embora tenha havido uma leve recuperação em 2022, com uma produção de cerca de 1 milhão de barris diários, isso ainda representa menos de 1% da produção global de petróleo.
História de Dependência do Petróleo e Seus Efeitos na Economia
Historicamente, o petróleo moldou a economia venezuelana ao longo do século XX, especialmente após as grandes descobertas nas décadas de 1920 e 1930. A Venezuela rapidamente se consolidou como um dos principais produtores mundiais e, em 1960, ajudou a fundar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Em 1976, o governo nacionalizou a indústria petrolífera e criou a PDVSA, transformando o setor em um monopólio estatal. Durante os anos de governo de Hugo Chávez, uma parte significativa das receitas do petróleo foi direcionada a programas sociais, em detrimento de outros investimentos econômicos.
Como resultado, entre 1998 e 2019, mais de 90% das exportações venezuelanas foram oriundas do petróleo. Com a queda da produção, o país enfrentou sanções internacionais, o que agravou ainda mais a crise econômica. Segundo o Banco Central, em 2019 os preços na Venezuela dispararam, com uma inflação de 344.510%, fazendo com que produtos que custavam um valor se tornassem exorbitantemente mais caros.
Sanções e Relações com os EUA
A relação dos Estados Unidos com o petróleo venezuelano remonta aos anos 1920, quando grandes companhias americanas se estabeleceram no país. No entanto, o rigor das sanções levou a uma drástica diminuição dessa presença. Atualmente, a Chevron é a única empresa americana atuando na Venezuela, operando sob uma autorização especial de Washington, apesar das restrições.
A PDVSA, que no passado assegurava a entrada de dólares na economia venezuelana, enfrenta sérios cortes orçamentários que dificultam a manutenção e os investimentos, intensificando a queda da produção. Em 2002, a polêmica nomeação do economista Gastón Parra para a presidência da PDVSA resultou em uma greve que paralisou as operações da empresa por cerca de dois meses, levando à demissão de aproximadamente 20 mil funcionários.
Petróleo e Geopolítica Internacional: Desafios e Oportunidades
Apesar de todos os obstáculos, o petróleo permanece como a espinha dorsal da economia venezuelana. Em 2024, a PDVSA deve faturar cerca de US$ 17,5 bilhões em exportações, com uma produção média que deve ultrapassar os 800 mil barris diários. O petróleo venezuelano é considerado crucial para os EUA por sua compatibilidade com as refinarias norte-americanas. Especialistas apontam que o interesse dos Estados Unidos não se limita ao combate ao narcotráfico, mas também busca objetivos econômicos que incluem a tentativa de reduzir os preços dos combustíveis no mercado interno.
Antes das sanções em 2019, os EUA eram os principais compradores do petróleo venezuelano. Após as restrições, a Venezuela redirecionou suas exportações para a China, firmando acordos de troca de petróleo por empréstimos, o que intensifica a rivalidade geopolítica na região. Informações da Reuters indicam que, para quitar empréstimos, a Venezuela vinha enviando petróleo bruto por meio de superpetroleiros, que, até recentemente, pertenciam em parte a Caracas e Pequim.
Após o anúncio de um bloqueio por Trump a todas as embarcações que entrassem ou saíssem da Venezuela, essas embarcações ficaram à espera de novas diretrizes. Em entrevista à “Fox News”, Trump declarou que a China continuaria a receber petróleo, mas não forneceu detalhes de como isso ocorreria.
Impacto Econômico do Petróleo na Venezuela
A produção e a exportação de petróleo são vitais para a economia do país. Estimativas baseadas em dados da PDVSA e da Reuters apontam que as exportações de petróleo foram responsáveis por cerca de 58% da receita da estatal em 2024. Nesse ano, a empresa arrecadou US$ 17,52 bilhões com vendas de hidrocarbonetos, dos quais cerca de US$ 10,41 bilhões foram destinados ao Tesouro da Venezuela em impostos e royalties.
O Banco Central da Venezuela reportou um crescimento de 7,71% da economia no primeiro semestre de 2025, impulsionado principalmente pelo setor de hidrocarbonetos, que avançou quase 15% durante esse período. Comparando com o mesmo período do ano anterior, o PIB venezuelano cresceu 8,71% no terceiro trimestre de 2025, com a atividade petrolífera aumentando em 16,12%, enquanto a atividade não petrolífera teve um crescimento de 6,12%.
Contudo, essa dependência apresenta riscos. Um estudo do Instituto Tricontinental, fundamentado em dados da Global South Insights, estima que as sanções lideradas pelos EUA resultaram em perdas de US$ 226 bilhões nas receitas petrolíferas da Venezuela entre 2017 e 2024, um valor superior ao PIB atual do país, que é de aproximadamente US$ 108,5 bilhões.
