O Papel da Religiosidade na Política Brasileira
O debate sobre a intersecção entre fé e política no Brasil ganhou novos contornos em janeiro de 2026, quando o deputado Nikolas Ferreira (PL) divulgou uma mensagem de sua irmã. A mensagem alertava sobre supostos rituais de ‘magia negra’ que teriam sido praticados contra ele, fato que rapidamente se espalhou pelas redes sociais, gerando inúmeras reações.
Esse episódio reacende uma discussão que não é nova, mas que frequentemente emerge em momentos-chave da vida pública do país. A relação entre a religiosidade, principalmente a cristã, e figuras políticas tem sido uma constante, mobilizando tanto apoiadores fervorosos quanto críticos acérrimos.
A conexão entre crenças pessoais e o mandato público frequentemente serve como uma ponte para estabelecer ligações com eleitores que compartilham valores semelhantes. Contudo, isso também provoca debates sobre a manutenção do Estado laico, que é um princípio fundamental que defende a separação entre Igreja e Estado nas decisões governamentais.
Exemplos Marcantes de Crença na Política
A trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é um exemplo significativo dessa dinâmica. Seu lema de campanha, ‘Brasil acima de tudo, Deus acima de todos’, não apenas atraiu um eleitorado religioso considerável, mas também consolidou uma base de apoio que se manteve fiel durante sua gestão.
Além dele, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) tem feito da fé um elemento central em seus discursos e aparições públicas, especialmente em sua atuação à frente do Partido Liberal (PL) Mulher. A crença se torna, assim, uma forma de conectar-se emocionalmente com os eleitores, evidenciando a força da religiosidade na política.
No entanto, essa influência não se limita apenas a figuras ligadas ao governo. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede Sustentabilidade), também exemplifica essa intersecção entre fé e política. Sua orientação religiosa evangélica permeia suas opiniões sobre temas controversos como aborto e direitos civis, sendo uma constante em sua atuação nas discussões eleitorais.
A Organizada Bancada Evangélica
A influência da fé transcende as individualidades e se reflete de maneira organizada no Congresso Nacional. A chamada ‘bancada evangélica’ é composta por parlamentares de diferentes partidos que se unem para promover pautas de costumes e outras questões alinhadas com suas convicções religiosas.
No contexto recente, destaca-se a eleição de Gilberto Nascimento (PSD-SP) para a presidência da bancada, que obteve 117 votos a favor. Nascimento é fundador da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) e possui vínculos com o grupo político de Jair Bolsonaro, recebendo apoio de figuras como o pastor Silas Malafaia e membros da Assembleia de Deus.
Entre os parlamentares notáveis da bancada, figuram nomes como Silas Câmara (Republicanos-AM), que já ocupou a presidência da bancada, o ex-vice-presidente Otoni de Paula (MDB-RJ) e a deputada Greyce Elias (Avante-MG), que atualmente é vice-presidente.
Reflexões sobre a Intersecção entre Crença e Política
Esses casos ilustram como a fé se tornou um componente essencial na política brasileira contemporânea. A exposição de crenças individuais por parte de parlamentares e governantes não apenas serve como uma estratégia de mobilização de eleitores, mas também pauta debates que moldam o cenário político do país.
À medida que a religiosidade continua a ser um tema recorrente nas eleições, a necessidade de uma reflexão profunda sobre os limites entre a fé e a política se faz mais urgente. O papel da crença, ao mesmo tempo em que conecta e divide, exige um cuidado especial para que o Estado laico se mantenha respeitado e garantido, sem que uma ideologia religiosa prevaleça sobre os direitos de todos os cidadãos.
