A Fake News Gerada por IA Que Alarmou o Cenário Político em Minas Gerais
Um vídeo começou a circular como muitos outros: inicialmente compartilhado em grupos políticos no WhatsApp, rapidamente se espalhou por perfis de redes sociais identificados com a direita mineira. Em pouco tempo, o material chegou a gabinetes e assessorias, levando o senador Cleitinho (Republicanos-MG), líder nas pesquisas para as eleições de 2026, a reagir publicamente. O conteúdo simulava integrantes do MST anunciando uma fictícia invasão à Venezuela. Apesar de ser uma produção falsa gerada por inteligência artificial, a informação foi considerada real em sua repercussão inicial.
O episódio se transformou em um alerta sobre os perigos que a tecnologia pode trazer para o próximo ciclo eleitoral, especialmente em um contexto onde figuras com grande influência nas redes sociais estão envolvidas. A deputada estadual Lohanna (PV) criticou abertamente o uso de vídeos fraudulentos, afirmando: “Não associem isso aqui com o povo mineiro. Usar vídeo falso feito com IA”. No reduto eleitoral de Cleitinho, o vereador Vitor Costa (PT) expressou sua indignação, apontando que “já não basta as fake news de sempre, agora temos senadores caindo em fraudes com vídeos de IA e espalhando como se fossem verdade”.
A repercussão desse caso evidencia uma preocupação que vem sendo discutida em particular entre marqueteiros, advogados eleitorais e estrategistas: a dificuldade de responder rapidamente a conteúdos falsificados cada vez mais sofisticados. Segundo o publicitário Samuel Consentino, as campanhas precisam de um suporte jurídico robusto para identificar rapidamente a origem de conteúdos enganosos e tomar as devidas providências legais. “A clonagem de áudio, por exemplo, pode ser mais perigosa do que a manipulação de vídeo”, alertou.
Cleitinho já foi alvo de fraudes semelhantes, com vídeos manipulados de sua voz e imagem aparecendo para promover falsas indenizações, que foram desmentidas posteriormente. A discussão, no entanto, não se limita a Minas Gerais. Nos últimos anos, vídeos manipulados com IA envolvendo figuras proeminentes como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) também circularam nas redes sociais, levando a decisões judiciais do STF e do TSE que exigiram a remoção desses conteúdos e a aplicação de selos de verificação.
Entre os especialistas, há um consenso sobre a necessidade de distinguir entre o uso da tecnologia como uma ferramenta e sua utilização como substituta da estratégia política. O consultor de marketing político, Celso Lamounier, destaca que “uma coisa é fazer campanha utilizando inteligência artificial. Outra é ter uma campanha feita pela inteligência artificial”. Para ele, embora a IA já faça parte das campanhas, não pode substituir a análise de contexto, a sensibilidade política e a tomada de decisões estratégicas, que continuam sendo responsabilidades humanas.
Lamounier argumenta que a inteligência artificial não originou o problema da desinformação, mas o intensificou, criando um ambiente onde a Justiça Eleitoral já enfrentava dificuldades em controlar a situação em tempo real. Ele prevê que as eleições de 2026 serão as primeiras em que a tecnologia estará totalmente integrada ao cotidiano, aumentando a confusão nas interações digitais.
Dados de pesquisas do INCT.DD e da FGV indicam que vídeos curtos tendem a gerar mais engajamento do que textos, especialmente quando tratam de narrativas de conflito. No Brasil, já existem indícios desse fenômeno fora do período eleitoral, como nos vídeos do governador Romeu Zema (Novo), que se alinham às tendências das redes sociais e formatos digitais.
Diante desse cenário, o TSE aprovou novas normas que proíbem o uso de deepfakes eleitorais, exigem identificação de conteúdos gerados ou manipulados por inteligência artificial e preveem a responsabilização de candidatos, partidos e plataformas. As eleições de 2026 representarão o primeiro grande teste dessas regras em um ambiente digital saturado de estímulos e disputas narrativas.
Para campanhas, tribunais e estrategistas, a avaliação é clara: a inteligência artificial não será um tema secundário, mas sim uma das principais arenas de debate. O incidente envolvendo Cleitinho não é um caso isolado, mas uma amostra do que está por vir. A disputa por votos em 2026 irá além das propostas, abrangendo também a capacidade de discernir entre o que é verdadeiro e o que é fabricado.
