Desafios e Tensões na Trajetória de Kassab
Gilberto Kassab, um nome reconhecido na política brasileira, é economista, engenheiro civil e corretor de imóveis. Aos 65 anos, ele acumulou uma trajetória impressionante que começou em entidades do comércio de São Paulo e evoluiu para a política institucional. Sua carreira inclui cargos como vereador, secretário municipal, vice-prefeito e prefeito da capital paulista, deputado federal e ainda ministro durante os governos de Dilma Rousseff e Michel Temer. A habilidade camaleônica de Kassab para navegar por diferentes estruturas partidárias rendeu-lhe prestígio significativo no cenário político.
Em 2011, ele fundou o PSD, que rapidamente se tornou uma força política em crescimento constante. Apesar de ter conquistado apenas dois governos em 2022, a legenda chega a 2026 com um total de seis governadores. Além disso, em 2024, foi a sigla que mais elegeu prefeitos no Brasil, somando 891 novos prefeitos. Atualmente, Kassab mantém uma posição estratégica, atuando tanto no governo de Lula, onde possui três ministérios, quanto no governo de Tarcísio de Freitas, de quem é secretário em São Paulo.
Nos bastidores, sua figura se destaca em momentos críticos: especialistas afirmam que, diante de uma situação delicada, os movimentos de Kassab devem ser observados com atenção. Contudo, a reputação que ele construiu ao longo dos anos será testada nas próximas eleições, na medida em que enfrentará diversos obstáculos que podem comprometer seus planos eleitorais.
Tensões em São Paulo: O Que Está em Jogo?
O principal desafio de Kassab se apresenta em São Paulo, onde ele acreditava ter uma fortaleza eleitoral. Nos últimos dias, surgiram trocas de farpas com Tarcísio, a quem ele sempre considerou a melhor opção para rivalizar com Lula. O descontentamento de Kassab é evidente, tendo se manifestado de forma mais clara em algumas ocasiões. Sua frustração se acentuou quando Tarcísio decidiu não concorrer à presidência, momento em que alimentava esperanças de ser seu vice nas próximas eleições. Agora, com a reeleição do governador em vista, essas aspirações foram frustradas.
Esse desconforto já existia há algum tempo, conforme revelam aliados próximos. Quando Tarcísio abandonou o projeto presidencial, Kassab criticou que o governador deveria demonstrar “identidade” em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro, salientando que “uma coisa é gratidão, outra é submissão”. Tarcísio, por sua vez, reagiu, afirmando que “infelizmente, amizade e lealdade na política tornaram-se atributos escassos”. Na sequência, Kassab publicou uma lista em suas redes sociais, mencionando “bons amigos e conselheiros” de sua trajetória, incluindo Tarcísio, o que gerou mais polêmica sobre a relação entre os dois.
Um importante aliado de ambos comentou: “Kassab não deseja um vice do PSD em São Paulo, ele quer ser o vice”.
Conflitos e Estratégias para 2026
O desencontro entre Kassab e Tarcísio pode ser intensificado pela postura do dirigente do PSD nas eleições nacionais. Enquanto Tarcísio se organiza para apoiar Flávio Bolsonaro na corrida presidencial, Kassab planeja promover um de seus três presidenciáveis — Ratinho Junior, Eduardo Leite e Ronaldo Caiado — nas urnas de outubro. Para isso, ele planeja uma turnê eleitoral em cinco cidades de São Paulo nos dias 27 e 28, onde realizará filiações políticas significativas.
Recentemente, uma pesquisa da AtlasIntel/Bloomberg apontou que as intenções de voto para os três presidenciáveis do PSD são baixas: 4,9% para Caiado, 3,8% para Ratinho Junior e 1,6% para Eduardo Leite. No segundo turno, todos eles apresentaram desempenhos inferiores aos de Flávio. Com a dificuldade de lançar um candidato próprio e a negativa de apoio a Lula ou Flávio Bolsonaro, Kassab pode enfrentar uma divisão ainda mais profunda dentro do partido.
Lula, por sua vez, está investindo na formação de palanques regionais, contando com apoios sólidos do PSD em estados como Rio de Janeiro, Bahia, Ceará, Amazonas, Alagoas, Piauí e Mato Grosso. Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD) demonstra mais interesse em alinhar-se a Lula do que em apoiar um candidato próprio do PSD. O primeiro governador eleito pelo partido no Nordeste, Fábio Mitidieri (Sergipe), já declarou que dará seu apoio ao petista. Outro nome do PSD, Mateus Simões, que assumirá o governo de Minas Gerais em abril, anunciou que seu candidato ao Planalto será Romeu Zema (Novo), atualmente governador.
A História do PSD e o Tabuleiro Político de Kassab
Em 2011, ao fundar o PSD, Kassab afirmou que a nova legenda “não era de centro, nem de direita, nem de esquerda”, uma definição que, ou a falta de, ajudou o partido a atrair integrantes de diversas vertentes políticas. Com 47 deputados e treze senadores, o PSD aspira a formar a maior bancada no Congresso Nacional. Entretanto, a postura atual de Kassab não tem conseguido atrair apoios, exceto por algumas aproximações pontuais com o MDB em certos estados. Considerado um hábil estrategista, Kassab se encontra em uma situação complexa no tabuleiro político, e terá mais uma oportunidade de demonstrar que sabe como jogar esse jogo desafiador.
