A Jornada de Kelly Crifer na Preparação de Conceição Evaristo
Um dos pontos altos do filme “Se eu fosse vivo… Vivia”, a nova obra do cineasta André Novais Oliveira, é a emocionante estreia de Conceição Evaristo como atriz. O longa, que foi selecionado para o 76º Festival de Cinema de Berlim, programado para acontecer entre 12 e 22 de fevereiro, traz Evaristo como protagonista, ao lado de Norberto Oliveira, pai do diretor.
Cabe à talentosa atriz, diretora e professora Kelly Crifer a missão de preparar Evaristo para interpretar Jacira, uma personagem inspirada em dona Zezé, mãe do cineasta. O convite para essa colaboração surgiu em um momento especial: durante a celebração dos 15 anos da produtora Filmes de Plástico, André Novais se aproximou de Kelly com a proposta de preparar seu pai para o papel de Gilberto.
Na semana seguinte, Marianne Macedo, assistente de direção do filme, informou a Kelly que Jacira seria interpretada por Conceição Evaristo e que a preparação da escritora também estaria sob sua responsabilidade. Kelly, admiradora da obra de Evaristo, expressou que sua reação foi de emoção e apreensão: “Ensaiamos no espaço do grupo Maria Cutia. Ela entrou devagarzinho; eu observava aquela mulher, foi uma experiência imensa. Lembro da sensação de quando saí de casa, apreensiva, e de ter voltado preenchida. Foi uma experiência muito intensa e rica”, relata.
Para estabelecer uma conexão profunda com a personagem, Kelly buscou a cumplicidade que o trabalho exige. O livro “Becos da Memória”, lançado por Evaristo em 2006, serviu como um importante ponto de partida para essa aproximação. Nascida no interior, Kelly compartilhou experiências de vida com a escritora: “Sou do interior, vivi no Vale do Jequitinhonha até os 11 anos, sem água encanada, sem luz, e, quando vim para Belo Horizonte, morei por 18 anos na favela do Pau Comeu. Fomos compartilhando vivências, nos demos as mãos nesses relatos. Comecei a trabalhar com ela girando a roda da escritora para a personagem”, conta.
A preparação, que durou 40 dias, envolveu um mergulho profundo nas nuances da atuação, abordando desde aspectos técnicos, como a maneira de lidar com a câmera em entrevistas, até os elementos emocionais que fazem a diferença na construção de uma personagem.
A Fragilidade Necessária na Atuação
“É preciso, no momento em que se vai atuar, estar frágil, para experimentar sensações e circunstâncias, então foi um processo de desconstruir a Conceição, a forma como ela arruma o cabelo, as roupas que veste, os brincos que usa, para se tornar Jacira”, ressalta Kelly. Com uma trajetória que começou no teatro, seu primeiro trabalho no cinema foi no curta “Contagem” (2009), de Gabriel Martins e Maurílio Martins. “Eles ainda eram estudantes e me convidaram para fazer o curta, que era o trabalho de conclusão de curso deles e que ganhou visibilidade no mundo inteiro. Ali começou a nascer a Filmes de Plástico. Fui descoberta por eles e seguimos juntos”, afirma.
Após essa experiência inicial, Kelly participou de muitos outros projetos cinematográficos, incluindo “No Coração do Mundo” (2019) e “O Dia Que Te Conheci” (2023), ambos dirigidos por André Novais. A versatilidade de Kelly também se reflete em sua formação acadêmica; quando estudante da rede pública em Belo Horizonte, ela se inscreveu no curso de Artes Cênicas da UFMG, inspirado por uma apostila da instituição que leu. Kelly relembra: “Na época, já atuava em peças amadoras na escola e em grupos comunitários.”
O substrato de sua arte é profundamente enraizado nas vivências de sua infância no Jequitinhonha. “Eu não tinha acesso a nada, então tudo era muito inventado na roça, e meus tios participavam da Folia de Reis. Tudo o que faço vem daí”, explica. Ao longo de sua carreira, ela acumulou uma série de produções importantes, como “Os Ancestrais”, dirigido por Grace Passô, e “Jardins”, sob a direção de Rogério Araújo.
O Futuro de Kelly Crifer e suas Novas Conquistas
No cinema, Kelly também brilha em projetos que ainda estão por vir, como “Disciplina”, de Affonso Uchoa, que aborda a crise educacional no Brasil; “A Última Sílaba Tônica”, de Caroline Cavalcanti, que foca a vida de meninas em privação de liberdade; e “Posse”, de Ítalo Almeida, que discute a estrutura racista na sociedade.
Em um cenário cultural em constante evolução, a trajetória de Kelly Crifer não apenas destaca seu talento como atriz, mas também sua sensibilidade ao retratar personagens complexos. A jornada de Conceição Evaristo no cinema, sob a orientação de Kelly, promete ser um dos momentos mais memoráveis do festival em Berlim e para o cinema brasileiro como um todo.
