O Que é o Lecanemabe e Como Funciona
O neurologista Paulo Caramelli, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), esclarece que o lecanemabe é um medicamento que se destina a pacientes com alterações sutis em memória e cognição, que são percebidas tanto por eles quanto por familiares. “Esse medicamento é recomendado para casos onde não há comprometimento significativo da autonomia do paciente, como nas atividades básicas de higiene pessoal”, enfatiza Caramelli.
O lecanemabe representa o segundo medicamento aprovado no Brasil para o tratamento da Doença de Alzheimer. Em abril do ano anterior, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o uso do donanemabe (Kisunla), desenvolvido pela Eli Lilly. De acordo com Caramelli, ambos os medicamentos são anticorpos monoclonais antiamiloides, mas atuam em diferentes estágios do processo de maturação da proteína amiloide.
Resultados em Estudos Clínicos
Do ponto de vista clínico, tanto o lecanemabe quanto o donanemabe não proporcionam ganhos sintomáticos imediatos. “Os pacientes não notam melhora rápida da memória ou cognitivamente”, observa Caramelli. “Esses medicamentos têm como objetivo retardar a progressão do declínio cognitivo e funcional. Essa ação é crucial para o manejo da doença.” Em estudos realizados por aproximadamente um ano e meio, os pacientes que receberam o lecanemabe mostraram uma desaceleração na progressão da doença em comparação àqueles que receberam placebo.
O debate acadêmico acerca das causas do Alzheimer intensifica as controvérsias relacionadas ao uso do medicamento. “Não se tem certeza absoluta de que as placas de beta-amiloide sejam a causa primária da doença. Contudo, pesquisas demonstram que a remoção dessas placas pode desacelerar a progressão da enfermidade, que é a forma como esses medicamentos atuam”, comenta Eduardo Zimmer, pesquisador do Hospital Moinhos de Vento, apoiado pelo Instituto Serrapilheira e IDOR Ciência Pioneira.
Custo e Eficácia do Lecanemabe
Apesar do potencial do lecanemabe, ele é considerado um medicamento de alto custo e com eficácia clínica limitada. “Não é um remédio que interrompe de maneira significativa a progressão da doença, e a relevância de seu efeito ao longo de um ano e meio ainda é motivo de discussão”, pondera Caramelli.
Como é Realizado o Tratamento
O tratamento com lecanemabe é administrado por meio de infusões a cada duas semanas, em ambientes especializados. O medicamento é comercializado em frascos de 2 ml ou 5 ml, com uma concentração de 100 mg/ml da substância ativa. A dose recomendada é de 10 mg/kg, aplicada por infusão intravenosa que dura em média uma hora.
Para o tratamento ser iniciado, é necessário confirmar a presença da patologia amiloide no paciente. “Isso pode ser verificado através de um exame de PET scan para amiloide ou pela análise do líquor”, explica Zimmer. Esses exames também são importantes para identificar possíveis contraindicações ao uso do medicamento, como hemorragias intracerebrais e edemas cerebrais.
Contraindicações e Efeitos Colaterais do Lecanemabe
Pacientes que têm a variante genética do gene APOE e4 (E4) não devem ser tratados com lecanemabe, conforme diretrizes da Anvisa, pois apresentam maior risco de desenvolver inchaços temporários no cérebro, conhecidos como edemas, e hemorragias. A testagem genética para o APOE e4 (E4) é essencial antes do início do tratamento. No Brasil e em várias outras regiões, pacientes com essa condição não são indicados para o uso do medicamento.
Os principais efeitos adversos observados em estudos incluem edema cerebral, pequenos sangramentos no cérebro e dores de cabeça. “Os indivíduos com maior risco desses efeitos são aqueles que são homozigotos para APOE e4 (E4), tornando a testagem prévia fundamental”, acrescenta Zimmer. Além disso, pessoas que utilizam anticoagulantes também têm contraindicações para o lecanemabe.
Caramelli também recomenda a realização de uma ressonância magnética até um ano antes de começar o tratamento para detectar riscos como doenças vasculares cerebrais significativas ou áreas de micro-hemorragias anteriores.
Desafios para o Uso do Lecanemabe no Sistema Público de Saúde
O alto custo e a complexidade logística representam os principais obstáculos para a inclusão do lecanemabe na rede pública de saúde, o que atualmente inviabiliza sua utilização no Sistema Único de Saúde (SUS). Embora o preço exato no Brasil ainda não tenha sido estabelecido, nos Estados Unidos, o custo anual do tratamento gira em torno de U$ 26 mil (aproximadamente R$ 140 mil).
Quanto ao donanemabe, cuja comercialização teve início em agosto do ano anterior, ele também não foi incorporado ao SUS. Caramelli destaca a importância de que centros de saúde no Brasil e especialistas adquiram experiência com esses medicamentos para que, no futuro, possam ser discutidas a possível inclusão na rede pública.
