Reflexão sobre a relação mãe e filha no universo da arte e da fotografia
A Bienal de Veneza celebra a arte brasileira com a participação de destacados artistas como Ayrson Heráclito, Dan Lie e Eustaquio Neves, que foram selecionados para a 61ª edição do evento. Paralelamente, o trabalho da fotógrafa Leila Jinkings, mãe da atriz Maeve Jinkings, está em destaque no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro. A exposição, intitulada “Vetores-vertentes: Fotógrafas do Pará”, reúne 300 fotos que capturam o cotidiano do Centro do Rio antes da demolição para a construção da Avenida Presidente Vargas. O acervo de Leila, que ficou guardado durante anos, agora ganha nova vida e visibilidade por meio da curadoria da historiadora da arte Sissa Aneleh.
Leila Jinkings é reconhecida por suas coberturas jornalísticas e por seu talento como fotógrafa. Ao longo da sua carreira, ela registrou momentos significativos da história do Brasil, incluindo a visita do Papa João Paulo II em 1980 e as eleições de governadores em 1982. Suas fotos também abordam questões sociais e políticas, como o assassinato do advogado Gabriel Pimenta, destacado defensor dos direitos humanos. O olhar dela foi fundamental para documentar eventos que moldaram a sociedade brasileira.
A artista não apenas se dedicou à fotografia, mas também cultivou a relação com suas filhas, Isadora e Maeve, levando-as em suas jornadas fotográficas. O acervo de Leila, repleto de histórias e imagens, ficou guardado após ela se aposentar da câmera nos anos 1990. Entretanto, a curadora Sissa Aneleh, durante sua tese de doutorado em Artes Visuais, reconheceu a importância do trabalho de Leila e o incluiu na exposição que está em cartaz no CCBB até 30 de março.
A exposição apresenta um mapeamento da produção de 11 fotógrafas nascidas no Pará desde os anos 1970. Sissa Aneleh destaca que, apesar de muitas dessas pioneiras não terem recebido o mesmo reconhecimento que seus colegas homens, sua influência ressoa até hoje, inspirando novas gerações de mulheres na arte. “Elas desenvolveram um olhar sobre o universo feminino amazônico, abordando identidade e memória”, afirma a curadora.
Leila, que desde a infância demonstrou interesse pela fotografia, recorda momentos marcantes de sua juventude. Após ser chamada de “filha de comunista” por colegas durante a ditadura militar, seu pai, Raimundo da Costa Jinkings, mostrou-lhe uma revista com fotos de refugiados ajudados por soviéticos, um episódio que a deixou impressionada. “Essas imagens ficaram na minha mente, e, mais tarde, comecei a registrar minha vida e a de minhas filhas”, relembra Leila.
Maeve Jinkings, atual atriz e filha de Leila, afirma que a influência materna foi crucial em sua trajetória. Ela sabia que queria ser atriz desde os 10 anos, mas hesitou em compartilhar esse desejo até que sua mãe a incentivou a seguir a carreira artística. “Minha mãe notou que eu estava perdida e sugeriu um teste vocacional. Isso me fez perceber que meu medo era de me afirmar, não de atuar”, conta Maeve.
Além das lições sobre fotografia e arte, Maeve também relata como sua mãe lhe apresentou grandes filmes de autor na infância. Leila sempre a levava para assistir a obras de diretores renomados, como Ettore Scola e Wim Wenders. “Essas experiências moldaram minha compreensão artística e me ajudaram a buscar personagens complexos em minha carreira”, diz a atriz.
Com uma carreira que inclui participações em importantes longas-metragens brasileiros, como “Aquarius” e “Ainda estou aqui”, Maeve revela que o contato com o trabalho de sua mãe a inspirou a explorar narrativas mais profundas. A relação entre elas, marcada pela troca de experiências e aprendizados, reflete-se tanto nas fotografias de Leila quanto nas atuações de Maeve.
Leila revela que, após redescobrir seu acervo para a exposição, sentiu-se animada a retomar a fotografia. “Estava bloqueada, mas agora estou empolgada em usar uma câmera digital. É um novo começo”, afirma. Maeve, por sua vez, espera que a exposição “Vetores-vertentes” seja apenas o início de uma nova fase de reconhecimento para sua mãe, que merece brilhar no cenário artístico brasileiro novamente.
