Desligamento Controverso na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais
A maestra Ligia Amadio foi dispensada da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, onde atuou por quase três anos. Sua demissão ocorre aproximadamente um mês depois de um desabafo feito durante uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, onde criticou os baixos salários recebidos pelos músicos, que são financiados pela Fundação Clóvis Salgado (FCS). Ligia, a única mulher a ter liderado a orquestra em 50 anos, afirmou que a instituição, em sua opinião, é “a mais mal paga deste país”.
Durante a audiência, realizada em 26 de novembro do ano passado, outros músicos se juntaram a ela para expressar sua insatisfação com a remuneração de apenas R$ 100 por cinco horas de trabalho para músicos autônomos. A regente ainda apontou que os iniciantes na orquestra recebem um salário mensal de R$ 1.618,72. “Ao dividir isso por 24 dias de trabalho, dá cerca de R$ 66 por dia”, comentou Ligia, enfatizando a inadequação dessa quantia para profissionais que dedicaram anos de estudo.
A maestra, visivelmente emocionada, fez um apelo para que a situação fosse tratada com seriedade. “Não é aceitável que o governo considere justo um salário de R$ 1.600 para um músico. Para um profissional que estudou pelo menos 20 anos, entre o ensino básico, secundário e a faculdade. Eu peço encarecidamente que esse tema receba a devida atenção”, ressaltou Ligia, sendo aplaudida pela plateia.
Motivos da Demissão e Reações
Em resposta ao Estado de Minas sobre os motivos da demissão de Ligia Amadio, a assessoria da FCS afirmou que a decisão de desligá-la está alinhada à contratação de “regentes de renome nacional” para as apresentações do ano. “Para comemorar os 55 anos da Fundação, decidimos convidar regentes que fizeram parte da história da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais para conduzir as apresentações programadas para 2026”, declarou a FCS.
A maestra, que possui uma carreira consolidada em importantes orquestras, como a Sinfônica Nacional e a Sinfônica de Campinas, também tem uma trajetória internacional expressiva, tendo regido a Filarmônica de Montevidéu, a Filarmônica de Bogotá e a Filarmônica de Mendoza, na Argentina. “Devido a essa reestruturação, a execução do contrato da Diretora Musical e Regente Titular da Orquestra será encerrada de forma definitiva, abrindo espaço para um novo capítulo na música erudita de Minas Gerais”, completou a entidade.
A reportagem tentou entrar em contato com a maestra, mas não obteve sucesso.
Posicionamento do Sindicato dos Músicos
O Sindicato dos Músicos Profissionais de Minas Gerais (Sindmusi-MG) manifestou surpresa com a demissão, afirmando que esperava a continuidade do trabalho da maestra para 2026, um ano especial em que a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais completa 50 anos de história. “Acreditamos que a contribuição de Ligia foi essencial para elevar a qualidade artística da orquestra, e sua saída terá um impacto negativo na performance do grupo”, destacou o sindicato.
Além disso, o Sindmusi-MG comunicou que tentou dialogar com a direção da FCS para encontrar uma solução. “A direção foi contraditória ao alegar falta de recursos enquanto anúncia uma programação robusta para a temporada. Argumentamos que a permanência da liderança durante o ano comemorativo é crucial para a cultura mineira, mas a FCS manteve sua decisão”, afirmou a nota.
Conheça Ligia Amadio
Natural de São Paulo, Ligia Amadio assumiu a regência da OSMG em março de 2023 após a saída de Silvio Viegas. Com uma trajetória internacional, já se apresentou em cerca de 25 países nas Américas, Europa e Ásia. No Brasil, Ligia também trabalhou com a Orquestra Sinfônica Nacional e a Sinfônica da USP (Osusp), consolidando-se como uma das regentes mais reconhecidas do cenário musical brasileiro.
