Uma Vida de Cinema e Superação
Maria Ribeiro, a icônica atriz conhecida por seu papel fundamental no aclamado filme “Vidas Secas” (1963), faleceu no último dia 30 de dezembro, aos 102 anos. A notícia foi compartilhada por sua filha, Wilma Lindamar da Silva, em uma postagem no Facebook, e rapidamente chamou a atenção da mídia e do público, retratando a importância da artista na história do cinema nacional.
Nascida Maria Ramos da Silva no povoado do Boqueirão, em Sento Sé, na Bahia, sua trajetória começou a ser moldada desde cedo. Aos três anos, a família se mudou para Juazeiro, e posteriormente, ela foi para Minas Gerais, onde viveu em Pirapora com seus tios. Somente aos 15 anos, Maria se mudou para o Rio de Janeiro, onde sua jornada no cinema teve início, já na fase adulta, aos 35 anos, o que demonstra sua perseverança.
Em uma entrevista ao Estadão em 2008, Maria refletiu sobre sua carreira e como “Vidas Secas” foi um divisor de águas em sua vida. “Minha vida pode ser dividida entre um antes e depois de Vidas Secas”, declarou, revelando a importância do filme em sua trajetória.
Maria lembrou ainda de seu encontro com Nelson Pereira dos Santos, o renomado diretor do longa de 1963. Ela comentou: “Eu conhecia o Nelson profissionalmente, pois trabalhava no Laboratório Líder e ele, junto a outros diretores do Cinema Novo, costumava trazer seus filmes para revelar os negativos. Ele era uma pessoa muito humilde, que vivia sem muitos recursos, e eu tentava ajudá-lo da maneira que podia”.
O convite para integrar o elenco de “Vidas Secas” chegou a Maria através de Glauber Rocha, mas, inicialmente, a atriz acreditou que se tratava de uma brincadeira. Na manhã seguinte, Nelson foi até o laboratório para confirmar a notícia. Contudo, a atriz hesitou, temendo perder seu emprego, que era a principal fonte de sustento para sua filha. A solução encontrada por ela foi solicitar uma licença de dois meses ao patrão para realizar as filmagens.
Infelizmente, o pedido foi negado sob a justificativa de que a produção cinematográfica não justificava sua ausência. O fato acabou se espalhando pela imprensa, com reportagens relatando a história da atendente que se tornou atriz de cinema, mas que enfrentou barreiras no caminho. Foi então que Nelson Pereira dos Santos tomou a iniciativa de contatar o produtor Herbert Richers, que fez uma ligação a favor de Maria, permitindo que ela finalmente fosse liberada para as filmagens.
Com sua participação em “Vidas Secas”, Maria Ribeiro ganhou notoriedade e reconhecimento, chegando a participar do prestigiado Festival de Cannes, experiência que certamente ampliou seus horizontes. Ela viveu um tempo na Itália, marcando sua presença em um cenário internacional.
No momento de sua morte, Maria estava residindo em Genebra, na Suíça. Ao longo de sua carreira, a atriz participou de diversos outros filmes notáveis, incluindo “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” (1965), “Os Herdeiros” (1970), “O Amuleto de Ogum” (1974), “Perdida” (1976), “Soledade, a Bagaceira” (1976), “A Terceira Margem do Rio” (1994), onde teve a oportunidade de trabalhar novamente com Nelson Pereira dos Santos, e “As Tranças de Maria” (2003).
O legado de Maria Ribeiro permanece vivo na memória do público e na história do cinema brasileiro, inspirando novas gerações de artistas e amantes da sétima arte.
