O Interesse dos EUA em Recursos Naturais Estratégicos
Recentemente, a atenção internacional se voltou para a disputa por minerais estratégicos, especialmente em um cenário em que os Estados Unidos intensificaram suas ações na América Latina. O ataque à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, com foco no petróleo do país, junto com a insistência de Donald Trump em anexar a Groenlândia, são indicativos de uma busca acentuada por controle sobre recursos naturais. Durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, Trump descreveu a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, de forma desdenhosa, chamando-a de “pedaço de gelo”. No entanto, especialistas apontam que a verdadeira motivação por trás do interesse americano está na abundância de recursos minerais da região.
Dados apontam que a Groenlândia poderia abrigar até 25% das terras raras do mundo. Estima-se que sob o gelo existam pelo menos 1,5 milhão de toneladas de elementos de terras raras, além de lítio, grafite, urânio, e outros minerais essenciais para a transição energética e a indústria militar. Esses elementos são cruciais na fabricação de tecnologia de ponta, desde motores de veículos elétricos até sistemas de defesa.
O Papel do Brasil na Geopolítica Mineral
O Brasil, que possui mais de 98% das reservas de nióbio conhecidas no mundo, não está fora desse cenário. Durante uma entrevista à BBC News Brasil, o geólogo Adam Simon enfatizou a importância dos recursos minerais brasileiros, especialmente em Minas Gerais, onde jazidas de nióbio são abundantes e discussões sobre extração de terras raras estão em andamento com os Estados Unidos. A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) teve reuniões com autoridades americanas, mostrando o interesse dos EUA em estabelecer uma parceria na extração desses minerais.
A pesquisadora Ana Paula Lemes, da UFRJ, alerta que a busca dos EUA por controle sobre recursos naturais não deve ser ignorada. Segundo ela, a lógica de exploração que se aplica ao petróleo agora se estende aos minerais raros, tornando a questão uma questão de segurança nacional. “No século 21, a capacidade de um país de manter um arsenal militar moderno está diretamente ligada ao acesso a terras raras”, afirma. Essa dinâmica de poder é um reflexo do acesso a recursos que sustentam a tecnologia atual e o complexo militar-industrial.
Minas Gerais: Riqueza ou Sacrifício?
As jazidas de minerais em Minas Gerais, incluindo o lítio no Vale do Jequitinhonha, despertam o interesse das potências mundiais. Luiz Paulo Siqueira, dirigente do Movimento pela Soberania Popular na Mineração, ressalta que o Brasil possui enormes riquezas naturais, e a atenção dos EUA sobre elas não é nova. Relatórios como os da Wikileaks já indicavam a importância estratégica do nióbio brasileiro. Atualmente, o Brasil não é apenas um fornecedor de commodities; a pressão por um controle maior se torna evidente, especialmente com a recente estratégia de segurança nacional dos EUA em relação à América Latina.
O Desafio da Soberania Mineral
Entretanto, o desvio dos recursos naturais em favor do capital estrangeiro é um problema complexo. Ana Paula Lemes defende que o Brasil deve se afastar do modelo extrativista, que prioriza a exportação de minérios brutos, e começar a desenvolver uma estratégia que valorize a produção interna e o processamento dos minerais. “Precisamos transformar nossas reservas em produtos de alto valor agregado, garantindo a segurança jurídica e respeitando as comunidades locais”, argumenta.
Além disso, a captura de autoridades locais pelos interesses privados, como é o caso da política de privatização de recursos minerais sob a gestão do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, traz desafios adicionais. Para Siqueira, essa entrega dos bens naturais está comprometendo a soberania nacional e precisa ser revertida para garantir um desenvolvimento que respeite a riqueza do país e promova justiça social. Por isso, a discussão sobre políticas de defesa e controle dos recursos minerais deve estar na pauta da sociedade brasileira.
