Mobilização pela Preservação da Memória
A luta pela conservação do patrimônio material e imaterial relacionado à hanseníase no Espírito Santo se intensificou em 2025. Apesar dos avanços, Arthur Custódio, assessor nacional do Movimento pela Reintegração das Pessoas com Hanseníase (Morhan), aponta que “os progressos foram tardios, pois muito já se perdeu”. Ele ressalta a importância de ações que revitalizem a memória desses locais.
Um exemplo positivo dessa mobilização é a retomada do processo de tombamento do Hospital Pedro Fontes, que havia sido iniciado em 2008, mas estava sem progresso. A reativação desse processo ocorreu em novembro do ano passado. Outro marco significativo foi a iniciativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Espírito Santo (Iphan/ES), que começou o processo de tombamento do Educandário Alzira Bley em dezembro. Ambas as instituições estão localizadas em Cariacica, no bairro Padre Mathias.
O Educandário Alzira Bley, fundado em 1940, tinha como objetivo acolher os filhos dos pacientes internados no Hospital Pedro Fontes, um espaço destinado ao isolamento de pessoas com hanseníase, também conhecida como lepra. Os pacientes eram frequentemente retirados de forma violenta do convívio familiar e social. Tanto o hospital quanto o educandário surgiram durante o governo de Getúlio Vargas, em um contexto de políticas de isolamento e internação compulsória.
Perdas e Memórias: Um Patrimônio em Risco
Arthur Custódio destaca que as perdas associadas à hanseníase vão além do patrimônio físico. Entre os bens materiais, ele menciona as imagens de santos e os bancos de madeira da capela localizada no cemitério onde os pacientes eram sepultados, além de móveis do hospital. No plano imaterial, as lembranças de aqueles que viveram ali e que já faleceram também fazem parte do patrimônio que se perde com o tempo.
Recentemente, o Iphan/ES emitiu a Nota Técnica nº 45/2025, embargando atividades no cemitério Padre Mathias devido à depredação constatada na área. Moradores relataram abandono por parte das autoridades, o que resultou em atos de vandalismo que afetaram a antiga edificação do hospital.
Arthur faz uma comparação com o hospital colônia de Goiânia, que, assim como o de Cariacica, acolheu pacientes com hanseníase. “Quando houve depredação, começou-se a discutir a preservação. A lógica é a mesma. A destruição e o abandono provocaram perdas. Contudo, ainda há tempo para implementar um projeto que concilie o desenvolvimento industrial com ações de preservação da história local e regularização fundiária dos moradores”, sugere ele, referindo-se ao projeto do prefeito Euclério Sampaio (MDB) para criar um polo industrial na região.
Arthur acredita que o local pode se transformar em um espaço cultural, com museus, teatros e outras iniciativas que resgatem a história. Cidades que abrigaram hospitais-colônia geralmente compartilham características semelhantes, como a presença de indivíduos marginalizados, como presos, doentes e pessoas com transtornos mentais.
A Importância do Tombamento e do Reconhecimento Histórico
Cariacica exemplifica essa realidade, pois, além do Hospital Pedro Fontes, possui presídios e já acolheu um hospício, o Adauto Botelho, que hoje funciona como Hospital Estadual de Atenção Clínica (Heac). “A história não pode ser apagada”, enfatiza Arthur, citando o hospital-colônia de Betim, em Minas Gerais, que possui um memorial com relatos de ex-internos.
Sobre o tombamento do Educandário, o superintendente do Iphan, Joubert Jantorno Filho, informa que será necessária uma avaliação da viabilidade do processo, considerando elementos históricos e arqueológicos. Se viável, o Educandário poderá se tornar um patrimônio sensível, devido à sua conexão com uma população que passou por exclusão e negligência por parte do Estado.
O tombamento do Hospital Pedro Fontes foi solicitado em 2008 por professores e alunos da Faculdade Brasileira – Univix. Dois anos depois, a Câmara de Patrimônio Arquitetônico emitiu um parecer favorável, destacando a importância do sítio histórico para a preservação da memória e da história das políticas públicas de saúde no Espírito Santo. Este parecer foi enviado ao Plenário do Conselho Estadual de Cultura para análise.
Essas questões foram levantadas em uma denúncia apresentada ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES), que envolve intervenções realizadas pela Prefeitura de Cariacica na área de Padre Mathias. Os denunciantes incluem a vereadora Açucena (PT), além de professores, arqueólogos e pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), membros do Iphan-ES e ex-internos do Hospital Pedro Fontes.
Os documentos apontam que o último andamento do processo foi apresentado aos denunciantes pela Secretaria de Estado da Cultura (Secult) em 2018, quando o então gerente de Memória e Patrimônio, Rodrigo Zotelli Queiroz, enviou o processo ao Conselho Estadual de Cultura. O Decreto Municipal nº 274, de 25 de novembro de 2021, que instituiu o tombamento do Sítio Arqueológico Pedro Fontes, também é mencionado na denúncia, englobando a área do Cemitério São Francisco, capela e seu entorno.
