A Conexão entre Meio Ambiente e Saúde na Amazônia
Em novembro, a COP30 destacou Belém e a Amazônia como protagonistas em debates ambientais globais. Entretanto, um aspecto crucial que não pode ser negligenciado em discussões sobre preservação ambiental e mudanças climáticas é a saúde humana. As alterações nos ecossistemas, combinadas com a crescente mobilidade populacional, abrem novas avenidas para doenças que prosperam em regiões tropicais, como florestas e áreas de transição típicas dos biomas brasileiros. Esse cenário pode resultar em uma propagação de enfermidades que ultrapassam os limites destas regiões.
Entre as doenças mais preocupantes associadas ao ambiente amazônico, estão a malária, febre maculosa, Doença de Chagas, dengue e outras arboviroses, como zika e chikungunya, além das leishmanioses, febre amarela e doenças relacionadas ao saneamento, como a esquistossomose. A malária é um exemplo claro dessa relação: mais de 99% dos casos no Brasil estão concentrados na Amazônia, onde continua a ser um grave desafio epidemiológico. Estudos indicam que o desmatamento altera o habitat dos mosquitos, o que pode elevar a taxa de transmissão; estima-se que um aumento de 10% na derrubada da vegetação possa resultar em aproximadamente 3% mais casos.
Doenças em Ascensão e Seus Desafios
A Doença de Chagas merece consideração especial na região amazônica. Além da transmissão clássica através do barbeiro, surtos por via oral, provenientes do consumo de alimentos contaminados, têm se tornado mais frequentes. De 2012 a 2021, quase 39 mil casos suspeitos foram registrados no Brasil, e mais de 80% das confirmações ocorreram por transmissão oral. Assim, a dinâmica da floresta, o fluxo de pessoas em áreas naturais e a produção artesanal de alimentos favorecem a disseminação dessa doença.
Outro ponto de preocupação é a febre maculosa, transmitida por carrapatos e associada a mamíferos como capivaras e roedores. Esta doença apresenta evolução rápida e alta letalidade quando o diagnóstico não é realizado rapidamente. Entre 2007 e 2025, registros oficiais apontaram casos persistentes, afetando principalmente adultos de 20 a 49 anos que residem ou circulam por áreas arborizadas ou ambientes silvestres.
Leishmanioses e Esquistossomose: Desafios Adicionais
A relação entre meio ambiente, ocupação humana e doenças é ainda mais notável nas leishmanioses. Em 2023, a forma tegumentar registrou cerca de 13 mil casos no Brasil, com predominância na Região Norte, marcada por desmatamento, garimpo e expansão urbana sobre áreas de mata.
Por outro lado, a leishmaniose visceral, mais comum no Norte e Nordeste, está se expandindo para centros urbanos de estados como Minas Gerais e São Paulo. Isso alerta para as mudanças no uso do solo e seu impacto na circulação de vetores. Já a esquistossomose permanece vinculada ao saneamento deficiente e à falta de infraestrutura hídrica adequada.
A Importância da Preservação Ambiental para a Saúde Pública
Diante desse contexto, é evidente que discutir saúde pública sem levar em conta a preservação ambiental é um erro estratégico. Para mitigar riscos, é necessário um plano integrado que contemple vigilância, políticas sociais, conservação florestal e ações preventivas diretas.
Isso inclui ações em nível individual e comunitário, como eliminar criadouros de mosquitos, utilizar telas e repelentes, intensificar campanhas de vacinação em áreas vulneráveis e garantir diagnósticos e tratamentos precoces para reduzir a mortalidade e a transmissão. Estruturalmente, proteger florestas e regulamentar atividades como mineração e desmatamento é fundamental para limitar a exposição humana a vetores e reservatórios — um esforço que conecta saúde e preservação climática.
Adaptação de Políticas e Vigilância Epidemiológica
Ademais, é crucial adaptar políticas nacionais, reforçar a vigilância epidemiológica em fronteiras florestais, financiar serviços de saúde em comunidades remotas e incentivar pesquisas que explorem como as mudanças ambientais impactam o risco de doenças.
Em um mundo marcado por instabilidade climática e crescentes pressões ecológicas, a preservação da natureza não é apenas um gesto ambiental; é uma estratégia preventiva de saúde pública que protege populações vulneráveis e diminui custos futuros com surtos e tratamentos.
