A Reedição de ‘Nego Tudo’
Você teria um momento para apreciar a arte da microficção? Mesmo que seja apenas por um instante, essa forma de literatura possui a capacidade de transmitir muito mais do que um simples post em redes sociais. Andréa Del Fuego é uma fervorosa defensora dessa narrativa.
Seu livro “Nego tudo” investiga um formato que ainda não possui uma definição precisa. Enquanto alguns o chamam de microficção, outros preferem o termo microconto. Del Fuego, por sua vez, é adepta da definição proposta pela renomada escritora argentina Ana Maria Shua: ficção súbita, uma expressão que tem origem no inglês “sudden fiction”.
A autora se aventurou por essa narrativa curta, que ela descreve como “um binóculo que capta um momento efêmero, um comentário no elevador que despenca, uma fotografia congelada em um impasse, e os amores cultivados em estufas”.
Um Clássico da Literatura Contemporânea
Lançado inicialmente em 2005, “Nego tudo” chega à nova versão duas décadas depois de sua estreia, quando a Flip ainda vivia seus primeiros anos e as discussões em torno da produção literária contemporânea começavam a ganhar força graças às redes sociais e blogs que impulsionavam novas formas de expressão.
Na época, Del Fuego havia publicado uma edição artesanal do livro, com apenas 107 cópias, voltada principalmente para amigos. Agora, nesta reedição, ela apresenta novas narrativas breves e reinterpreta muitas das já existentes.
As histórias podem variar de uma linha, como “qualquer homem que veio depois, não veio”, a textos que se estendem por quatro páginas, em um livro que já é menor que os modelos tradicionais.
A Literatura e o Consumo Rápido
Del Fuego é consciente de que, atualmente, a associação imediata da microficção se relaciona com a forma acelerada de consumo literário, adaptada a um público cada vez mais distraído, influenciado pelo fluxo interminável de informações nas redes sociais. Segundo ela, “a economia da atenção é uma batalha constante por engajamento em tempos de sobrecarga informativa”.
Ela questiona: “Quando foi a última vez que você assistiu a um filme ou leu um livro sem pegar o celular?”. Esse novo formato textual, acredita a autora, “favorece esse novo regime de atenção, mas não tem a velocidade de um scroll”.
A Natureza Densa da Ficção Súbita
A ficção súbita, segundo Del Fuego, possui um ritmo peculiar. “A Ana Maria Shua sugere que essa leitura se torna mais densa, pois funciona como atmosferas. Quando você entra e sai rapidamente de uma atmosfera, acaba experimentando um certo jet lag de leitura”, explica. Embora os textos sejam breves, a leitura deles exige um tempo maior.
Não foi apenas Del Fuego que surfou nessa onda. Em 2005, Adriana Lisboa também lançou “Caligrafias”, uma obra repleta de micronarrativas, que agora relança pela Maralto Edições. Além disso, em 2004, Natércia Pontes já havia explorado esse formato em “Az mulerez”.
Reflexões sobre o Ofício da Escrita
Na época do lançamento inicial de “Nego tudo”, havia um intenso debate sobre a validade dos blogs como forma de literatura. Del Fuego lembra de ter respondido, “uma música tocando no elevador não transforma a canção em uma música de elevador”. Da mesma forma, a literatura pode transcender rótulos.
Embora a autora aprecie a narrativa longa, sua paixão pelas pequenas histórias foi renovada. Del Fuego carrega uma ecobag que ela apelidou de “bolsa Jequiti”, repleta de obras que ela dedica atenção especial. Entre elas, “Os cem menores contos brasileiros do século”, um desafio de Marcelino Freire que solicitou histórias inéditas de até 50 letras.
Ela se mostra particularmente afeiçoada ao conto de Cintia Moscovich: “Uma vida inteira pela frente. O tiro veio de trás”. Outras obras, como “Saideira – O livro dos epitáfios”, organizado por Freire e Joca Reiners Terron, também atraem seu interesse e criatividade.
A Importância da Apresentação Visual
Del Fuego ressalta que a apresentação visual desses textos também é relevante. “Pela mancha do texto no papel, conseguimos perceber o que acontece ali”, comenta. Em meio a um poema ou um romance repleto de diálogos, algumas formatações já oferecem uma direção ao leitor, facilitando a navegação.
Um dos exemplos mais famosos de ficção súbita é a frase “vende-se: sapatos de bebê, nunca usados”, frequentemente atribuída a Ernest Hemingway, que supostamente a escreveu em um guardanapo de bar. Apesar de haver dúvidas sobre essa autoria, a frase ilustra perfeitamente a essência da microficção: em apenas seis palavras, é possível contar uma história inteira.
