Levantamento do MapBiomas sobre Urbanização e Riscos Climáticos
Um novo estudo divulgado pelo MapBiomas na quarta-feira (4/3) trouxe à tona dados preocupantes sobre a urbanização no Brasil. Entre 1985 e 2024, a ocupação em áreas de altas declividades – terrenos com inclinação superior a 30% – cresceu mais de três vezes, superando o aumento total da urbanização no país, que foi de 2,5 vezes nesse mesmo período. Essa expansão em áreas suscetíveis a deslizamentos de terra e erosão coloca em risco a vida de muitos brasileiros.
Minas Gerais, que recentemente enfrentou uma tragédia causada por chuvas intensas, se destaca como o estado com a maior área urbanizada em locais de alta declividade, com um aumento dramático nessa ocupação. Outros estados, como o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, também apresentaram crescimento significativo em termos proporcionais, segundo informações da Folha.
Outro dado alarmante do levantamento indica um crescimento de 145% na urbanização em áreas com elevação de até três metros em relação a cursos d’água. Essas condições tornam as regiões mais vulneráveis a enchentes e inundações. Roraima é o estado que apresenta a maior porcentagem de áreas urbanizadas sob essas condições, com 46,4%, seguido pelo Rio de Janeiro, com 43%, e Amapá, que chega a 37,6%.
Crescimento Urbano em Áreas com Escassez Hídrica
Além das áreas de risco, o estudo revela que um quarto do crescimento urbano no Brasil entre 1985 e 2024 ocorreu em regiões com escassez hídrica, afetando 1.325 municípios. Nos estados como Alagoas, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe, mais de 70% desse crescimento se deu sob essas condições críticas. O alerta é claro: a urbanização desordenada pode agravar a crise hídrica que já assola muitas regiões do país.
O MapBiomas também destacou a situação das favelas, cuja presença em terrenos de alta declividade aumentou em mais de 150%. O Rio de Janeiro é o estado que lidera esse ranking, com 1.730 hectares em favelas localizadas em áreas de risco, seguido por São Paulo, com 1.061 hectares, e Minas Gerais, com 1.057 hectares. Além disso, o espaço ocupado por favelas com risco de alagamento teve um crescimento superior a 200%, com os estados do Pará (7.450 ha), Rio de Janeiro (5.260 ha) e São Paulo (4.650 ha) à frente.
Crise Habitacional e Falta de Políticas Públicas
Em entrevista à Exame, o geógrafo Adriano Liziero ressaltou que o problema não reside nas chuvas, mas sim na falta de um modelo urbano sustentável e adaptável às realidades climáticas. Ele observou que a cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, que foi severamente afetada pelas chuvas nos últimos dias, é a terceira no ranking de áreas urbanizadas em terrenos com mais de 30% de inclinação, ficando atrás apenas de Rio de Janeiro e São Paulo.
A situação se agrava com a falta de atenção do governo em relação às estratégias de adaptação e prevenção. Um exemplo claro disso é a decisão do governo de Minas Gerais, que cortou em 96% o orçamento destinado à prevenção dos impactos das chuvas entre 2023 e 2025. Esta escolha evidencia um descaso que pode ter consequências dramáticas para a população vulnerável ao longo dos próximos anos.
