Uma Nova Ópera Brasileira
Em 2020, durante os desafios impostos pela pandemia, o compositor André Mehmari decidiu abraçar a criação de sua primeira ópera, a pedido do projeto Sistema Nacional de Orquestras Sociais (Sinos). Essa iniciativa é fruto de uma parceria entre a Funarte e a UFRJ. Após quatro meses de trabalho intenso, Mehmari apresentou “O machete”, uma adaptação do conto homônimo de Machado de Assis. A estreia da obra ocorreu em 2023, no Teatro São Pedro, em São Paulo, e agora chega ao público em um álbum lançado nas principais plataformas de streaming.
Além de ser o responsável pela composição e pelo libreto, Mehmari também se destacou ao tocar instrumentos como o cravo e a rabeca, e atuou como regente pela primeira vez, comandando um grupo de músicos e cantores durante a gravação. O compositor revela que a encomenda do Sinos o desafiou a criar uma obra acessível a orquestras jovens de projetos sociais, garantindo-lhe total liberdade criativa.
Inspiração na Obra de um Gênio
O conto de Machado de Assis, originalmente publicado em 1878, aborda a tensão entre a cultura popular e a erudita, refletida na relação entre Inácio Ramos, que toca violoncelo, e Barbosa, que se destaca com o machete, um instrumento musical de origem portuguesa. A história apresenta a jovem Carlota, que abandona Inácio em busca da popularidade de Barbosa em saraus.
Mehmari enfatiza que sempre buscou a conexão entre música e literatura, considerando Machado de Assis uma referência fundamental. Ao receber o convite para compor a ópera, ele não hesitou em escolher o autor como sua inspiração. “Eu já conhecia bem os contos de Machado que se conectam com músicas, mas não ‘O machete’. Foi José Miguel Wisnik quem me indicou, e assim que li, percebi que era perfeito para a ópera”, compartilha Mehmari.
Cruzando Fronteiras Culturais
O compositor observa que sua produção sempre questionou as fronteiras entre o “erudito” e o “popular”. Ele acredita que “O machete” representa sua reflexão mais completa sobre esse tema. “Me conecto com essas questões de alta e baixa cultura, sem qualquer viés moralista, em sintonia com as camadas sociais do Brasil urbano que surgia entre o fim do século 19 e o início do século 20, retratado com ironia por Machado”, afirma.
A música afro-brasileira, que começava a se consolidar na época, permeia a obra de Mehmari, que inclui referências a “Corta-jaca”, de Chiquinha Gonzaga, além de menções a diversos compositores clássicos e contemporâneos, como Bach, Monteverdi, Brahms e Villa-Lobos. Para ele, Ernesto Nazareth representa “a melhor tradução da aurora da música brasileira mestiça”.
Desafios e Conquistas
Mehmari, reconhecendo a ambição desse projeto, destaca que ele começou com a redação do libreto em 2020 e culminou na masterização do álbum. “A arregimentação do elenco foi feita em parceria com o pianista Leandro Roverso e o violoncelista Rafael Cesário, que é o alter ego musical de Inácio, interpretado pelo tenor William Manoel”, explica.
A produção, marcada por uma série de primeiras experiências para Mehmari, como compor uma ópera e atuar como regente, apresentou desafios únicos. O principal, segundo ele, foi a busca por uma estética musical que se alinhasse ao conto de Machado de Assis. “Como conectar suítes de Bach com o ‘Corta-jaca’ de Chiquinha Gonzaga? Esta obra é um verdadeiro baile inclusivo. O desafio da ópera brasileira é garantir a inteligibilidade do canto lírico em português. Eu procurei revelar a transparência da canção brasileira na escrita lírica”, conclui.
Uma Trilogia em Construção
Após “O machete”, Mehmari já se lançou na criação de sua segunda ópera, “A procura da flor”, baseada na obra de Machado de Assis e com libreto de Geraldo Carneiro, que fez sua estreia em 2022 no Festival de Música Erudita do Espírito Santo. Ele menciona que pretende fechar uma trilogia inspirada em Machado, com um projeto sobre “O alienista”, expressando sua expectativa de colaborar com novos parceiros em um futuro próximo.
