Uma Solução Ancestral para o Calor Contemporâneo
Recentemente, o Brasil enfrentou uma onda de calor intensa, principalmente nas regiões do Rio de Janeiro e São Paulo, onde as temperaturas ultrapassaram os 40ºC e 35ºC, respectivamente. Essa tendência de aquecimento não é uma preocupação exclusiva do Brasil, mas sim um fenômeno global, com recordes de temperaturas sendo registrados em várias partes do mundo. Em contrapartida, uma técnica milenar da China tem se destacado por sua eficácia em refrescar o interior das residências antigas.
Ru Ling, uma moradora que por quatro anos viveu em uma casa centenária na aldeia de Guanlu, na província de Anhui, compartilha sua experiência: “A sensação de frescor natural da minha casa no verão era difícil de encontrar no mundo moderno”, afirma. Sua residência, repleta de pátios internos, favorecia um clima agradável e uma atmosfera zen. Ru, que passou anos em apartamentos com ar-condicionado, percebeu a diferença significativa que os pátios oferecem, tornando o ambiente arejado e fresco.
Um estudo recente demonstrou que a temperatura interna desses pátios pode ser até 4,3 °C inferior à temperatura externa. Com o crescimento urbano acelerado da China, muitos estão se afastando dessas construções tradicionais, priorizando edifícios modernos equipados com ar-condicionado. No entanto, o ressurgimento do interesse pela arquitetura tradicional impulsiona a restauração de casas que incluem pátios internos, contribuindo assim para o conforto térmico.
A Tradição do Tian Jing
O termo “tian jing”, que se traduz como “poço para o céu”, refere-se a essa característica arquitetônica que se tornou emblemática nas residências do sul e do leste da China. Diferente dos pátios abertos do norte do país, os pátios internos são projetados para proporcionar conforto em climas quentes. Historicamente, essas construções, datadas das dinastias Ming e Qing, foram pensadas para acomodar várias gerações em ambientes que favorecem a ventilação e a iluminação natural.
Os pátios variam em tamanho e design, sendo retangulares e localizados no centro das casas. Por sua estrutura, possibilitam uma circulação de ar eficaz. O restaurador Yu Youhong, que há 30 anos se dedica à recuperação de casas com pátios em Jiangxi, enfatiza as funções essenciais dessa arquitetura: permitir a entrada de luz, melhorar a ventilação e coletar água da chuva, um recurso vital em climas quentes.
Na região de Huizhou, onde essas práticas estão mais preservadas, o design dos pátios garante que o ar quente se eleve e saia pela abertura no teto, enquanto a brisa fresca entra, criando um sistema eficiente de resfriamento natural.
O Renascimento da Arquitetura Tradicional
Apesar de a arquitetura tradicional estar perdendo espaço para construções modernas, nas últimas duas décadas, uma onda de renovação cultural despertou o interesse por pátios internos. O britânico Edward Gawne e sua esposa, Liao Minxin, transformaram uma antiga casa de três andares em um hotel boutique, preservando os pátios como áreas comuns, que oferecem ventilação natural e conforto.
“Mesmo sem ar-condicionado, os pátios são extremamente agradáveis durante o verão”, afirma Gawne. De acordo com ele, os visitantes sempre notam a frescura natural ao entrarem no hotel. A expectativa de Yu é que as novas gerações se sintam atraídas por esse tipo de construção, especialmente em um momento em que a sustentabilidade é uma prioridade crescente.
Aplicando a Sabedoria Ancestral nas Construções Modernas
O governo chinês vem incentivando práticas sustentáveis em construções desde 2013, promovendo a adoção de técnicas que reduzam o consumo de energia e a emissão de poluentes. Vários arquitetos têm se inspirado nos princípios dos pátios internos para desenvolver edifícios que não apenas respeitam o meio ambiente, mas também otimizam a eficiência energética.
Um exemplo é o Centro Nacional de Pesquisa de Tecnologia de Engenharia de Veículos Pesados em Jinan, que incorpora um “poço para o céu” no design, melhorando a iluminação e a ventilação do edifício. Outro caso é o museu na antiga prefeitura de Jixi, que também utiliza pátios internos como parte de sua estrutura, demonstrando como a herança cultural pode ser adaptada para resolver desafios contemporâneos.
Entretanto, a aplicação dos pátios internos em novos projetos requer uma adaptação cuidadosa, levando em consideração as especificidades de cada local. “A verdadeira sustentabilidade exige reflexão sobre nossos hábitos atuais em relação à construção e ao uso de recursos”, conclui Wang Zhengfeng, especialista em ciências humanas ambientais.
