O Crescente Número de Demissões Voluntárias
No último ano, a frase “Eu me demito” foi pronunciada, em diferentes nuances, cerca de 940,8 mil vezes em Minas Gerais, resultando em um recorde de pedidos de demissão no estado. Este fenômeno, que reflete uma tendência nacional, acompanha o Brasil como um todo, que registrou a impressionante marca de 9 milhões de demissões voluntárias. Por trás desse contexto, há diversos fatores que impactam tanto trabalhadores em funções menos qualificadas quanto aqueles em cargos que exigem maior formação acadêmica.
Os dados que corroboram essa análise foram coletados por Bruno Imaizumi, economista da empresa de inteligência 4intelligence, a partir do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Segundo Imaizumi, o aumento no número de pedidos de demissão é um indicativo positivo da saúde econômica do país. “Esse crescimento é comum em períodos de expansão econômica, pois sugere que há mais oportunidades disponíveis. Os trabalhadores se demitem de um emprego para serem admitidos em outro”, explica.
No entanto, esse cenário pode reservar desafios para os empresários. “Embora seja benéfico para os trabalhadores, que conseguem mudar de área, isso pode revelar a fragilidade das empresas em manter e atrair talentos”, ressalta o economista. Vale lembrar que a taxa de desemprego no Brasil fechou 2025 em 5,6%, o menor nível já alcançado.
Perfil dos Trabalhadores que Pedem Demissão
Em nível nacional, os pedidos de demissão estão majoritariamente concentrados entre indivíduos com ensino superior, completo ou incompleto, que representam 43% dos registros. Além disso, a idade se mostra um fator importante: quanto mais jovem o trabalhador, maior é a probabilidade de solicitar demissão. Os dados revelam que 41% dos jovens entre 18 e 24 anos optam por deixar seus empregos, enquanto essa porcentagem cai para 32% entre aqueles de 40 a 49 anos. “Trabalhadores mais escolarizados costumam ser mais procurados e, portanto, tendem a mudar de emprego com mais frequência. Já os mais velhos, geralmente, buscam estabilidade”, explica Imaizumi.
Por outro lado, para aqueles com menor nível educacional, que costumam estar em empregos com salários mais baixos, questões relacionadas à qualidade das vagas e à remuneração são as principais razões para a saída do emprego. A advogada trabalhista Isabella Monteiro observa que “as novas gerações estão cada vez mais discutindo a importância de uma vida além do trabalho, buscando melhores salários e condições. Muitos postos de trabalho ainda oferecem remunerações muito baixas, frequentemente baseadas no salário mínimo, desconsiderando o esforço do trabalhador. Há funções que exigem um esforço significativo, mas que oferecem condições de trabalho desfavoráveis. As pessoas estão repensando se vale a pena manter-se nesses empregos”.
Impacto das Novas Alternativas no Mercado de Trabalho
Entre a população de menor renda, até mesmo pequenas diferenças salariais podem ser decisivas para uma mudança de emprego. Para alguns, deixar o mercado formal e buscar trabalho em plataformas de corrida ou entrega se apresenta como uma alternativa viável. No entanto, Monteiro alerta que essa não é, necessariamente, uma solução de qualidade. “Frequentemente, para conseguir um salário um pouco mais alto, o trabalhador acaba enfrentando jornadas extenuantes de 12 horas. Assim, mesmo ganhando mais, a qualidade de vida pode não ser necessariamente melhor”, conclui.
