Crise em Juiz de Fora e a Imagem do Governador
O que realmente importa para o futuro de Minas Gerais? A pergunta paira no ar após a divulgação de um vídeo de quase duas horas, onde o governador do estado dialoga com um grupo de 30 pessoas em um formato que claramente visa gerar interação nas redes sociais. Curiosamente, o vídeo ganhou destaque exatamente no momento em que Juiz de Fora enfrentava intensas chuvas, resultando em alagamentos e danos significativos à cidade.
Este ponto é crucial. A crítica não se limita a uma análise temporal, mas sim a uma avaliação política. Em meio a uma crise urbana, a imagem do chefe do Executivo estadual destacou-se mais pelo espetáculo digital do que pela efetiva coordenação em situações emergenciais.
A Prioridade do Governador em Tempos de Crise
O papel de um governador, ainda mais em Minas Gerais, um estado com vasta diversidade territorial e social, exige mais do que simples aparições em mídias sociais. É essencial que haja liderança na articulação dos sistemas públicos, além de protocolos que integrem a Defesa Civil, os municípios e a União. O compromisso com a solidariedade institucional não deve ser apenas um discurso, mas uma prioridade política.
Dados recentes ressaltam este contraste. Em Juiz de Fora, as obras estruturais de drenagem mais relevantes estão ligadas ao Novo PAC, que destina mais de R$ 356 milhões para sistemas de drenagem em bairros como Industrial, Santa Luzia e São Pedro, além de R$ 63 milhões para Santa Efigênia, com execução municipal e apoio federal. Desde 2023, a prefeitura anunciou um pacote de R$ 420 milhões em obras contra enchentes. No entanto, do lado estadual, falta um inventário rofundo de grandes obras de drenagem e macrodrenagem destinadas especificamente a Juiz de Fora, com dados claros sobre cronogramas e valores.
A Lógica da Dopamina na Política
Este cenário se insere em um contexto alarmante. Entre 2020 e 2024, mais de 800 municípios mineiros tiveram que declarar situação de emergência devido a eventos relacionados a chuvas. Apesar disso, a política estadual tem focado em ações emergenciais e repasses pontuais, ao invés de desenvolver uma estratégia de prevenção integrada para cidades de médio porte.
Ademais, a política tem se deixado influenciar pela chamada lógica da dopamina digital. Esse neurotransmissor está associado à expectativa e à busca por recompensas rápidas. As redes sociais foram desenhadas para acionar esse circuito, promovendo ciclos de engajamento instantâneo. Quando a política se submete a essa dinâmica, acaba competindo por atenção ao invés de fornecer soluções reais.
De acordo com o relatório Digital 2024, o Brasil está entre os países que mais tempo passam em redes sociais, com uma média superior a três horas e meia por dia. Estudos publicados na “Nature Human Behaviour” indicam que essas plataformas tendem a aumentar a polarização, favorecer o populismo e reduzir o espaço para deliberações efetivas. Pesquisas realizadas por Carol Galais e Eva Anduiza confirmam que o engajamento político superficial promove a sensação de participação, mas diminui a disposição para ações cívicas mais exigentes.
A Necessidade de Compromisso Real
Quando a política é guiada por algoritmos, a performance se torna mais valorizada que a busca por soluções concretas. Atos como compartilhar, curtir e comentar se sobrepõem a ações como cobrar e participar ativamente. Entretanto, governar demanda profundidade, técnica e comprometimento com a vida real das pessoas.
Fomentar uma cultura política baseada na dopamina é prejudicial à democracia e enfraquece a gestão pública. A democracia requer menos espetáculo e mais presença, menos encenação e mais ação. Minas Gerais não precisa de um governador que se comporta como influenciador digital, mas sim de um líder engajado nas questões reais que afetam a vida da população.
