Um Retrato da Memória em ‘Pontos Perdidos’
O primeiro romance de Deborah R. Sousa, intitulado “Pontos Perdidos”, inicia sua narrativa de forma impactante com um colar que se quebra, espalhando miçangas pelo chão embaixo da cômoda. A narradora, ao se agachar para recolher as pequenas peças, simboliza o processo de reconstrução que permeia a obra, traçando um retrato íntimo de Teodora Rago, sua avó.
Lançado recentemente pela editora Impressões de Minas, o livro se desenvolve a partir da ausência de Teodora. A partir do momento em que o colar se desfaz, a neta se dedica a investigar memórias esquecidas, histórias não contadas e os silêncios que perduram entre gerações. “A escrita fragmentada reflete a demência senil de minha avó”, explica Deborah. “A reconstrução da memória é repleta de lacunas. Conhecer a própria história é um caminho não linear, repleto de pedaços”, complementa.
Teodora: Uma Vida Comum, Mas Repleta de Significado
Teodora não é apresentada como uma mulher extraordinária ou uma heroína. Ao contrário, é uma figura comum, porém de personalidade forte. Desde os 12 anos, quando reagiu corajosamente a um assédio dentro de um bonde, até os 90 anos, quando partiu deste mundo, a vida da avó é marcada por momentos que revelam sua força e resiliência. A narradora destaca que, mesmo sem realizar feitos grandiosos, a influência de Teodora na vida da neta é imensurável, transformando “Pontos Perdidos” em uma obra de profundo valor afetivo.
Os legados deixados por Teodora, como a horta que cultivou e os bordados que continuam a fazer parte do cotidiano familiar, trazem à tona as lembranças de sua presença. Embora ela não pronuncie uma única palavra ao longo da narrativa, o leitor consegue compreender sua essência através das reflexões da neta.
Uma Homenagem às Avós e ao Trabalho Feminino
Deborah revela que a motivação por trás de “Pontos Perdidos” é, em grande parte, uma homenagem às avós e às mulheres de uma geração que dedicaram suas vidas ao lar e a trabalhos manuais. “Quis valorizar o esforço que muitas vezes é invisível, um trabalho que é tanto artesanal quanto criativo. Isso dialoga com questões feministas, reforçando a importância das mulheres”, afirma a autora.
Com uma formação em psicologia, Deborah utiliza sua experiência profissional para desenvolver suas personagens. “Os personagens são construídos com palavras e linguagem, portanto, nunca serão exatamente iguais a seres humanos”, reflete. Ela busca trazer verossimilhança e complexidade às personagens, inspirando-se no que a rodeia.
Diálogo Intergeracional e O Jogo da Memória
O romance estabelece um diálogo entre gerações, onde a neta busca compreender sua avó de maneira mais ampla, enquanto Teodora, por sua vez, é lentamente levada pela senilidade e pela morte. Essa dinâmica reflete um jogo espelhado, onde a narradora descobre seus próprios “pontos perdidos” nos relacionamentos, na relação com a cidade e nas expectativas sociais que enfrenta.
Deborah é uma grande admiradora de escritores como Machado de Assis, Clarice Lispector e Gabriel García Márquez. No entanto, é na obra de autoras como Sylvia Plath e Patti Smith que “Pontos Perdidos” encontra suas influências mais intensas. “Assim como elas, escrevo a partir de um lugar muito interno, expondo uma intimidade que pode ser desconfortável”, explica a autora. A atmosfera do livro é permeada pela presença sutil da morte, quase como uma constante sombra na narrativa.
O Processo Criativo e a Influência da Leitura
Deborah compartilha que a produção de “Pontos Perdidos” levou quatro anos e que, durante esse tempo, a escrita foi um processo de reescrever. “Walter Benjamin disse que escrever é sempre reescrever, e foi exatamente isso que vivi”, comenta a autora. Ela revela que suas leituras influenciam seu trabalho, citando “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa, como uma leitura marcante do período.
A autora finaliza afirmando que a literatura possui seu próprio tempo de maturação. “O texto precisa de tempo para se desenvolver, quase como um molho que precisa descansar para ganhar sabor”. Com isso, “Pontos Perdidos” não só homenageia uma figura central na vida de Deborah, mas também se torna um convite à reflexão sobre as memórias que nos definem e a complexidade das relações familiares.
