Prejuízo Expressivo e Cortes Significativos
No ano de 2025, o Rio Grande do Norte se destacou como o estado mais afetado pelo curtailment, os cortes na geração de energia que são determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O prejuízo estimado para o estado é alarmante: até R$ 2,24 bilhões, conforme relatórios da consultoria Volt Robotics. Em termos de perdas, o RN ficou à frente de outros estados, como a Bahia, que registrou R$ 1,76 bilhão, e o Ceará, com R$ 849,73 milhões. Esses dados retratam a gravidade do cenário enfrentado por estados com alto potencial de geração de energia renovável.
Proporcionalmente à sua capacidade de geração, o RN ocupou a terceira posição em cortes de energia renovável, com uma redução de 24% na produção de suas usinas eólicas e fotovoltaicas. Minas Gerais, com 27,4%, e Ceará, com 25,8%, foram os únicos que registraram perdas maiores. Essa situação implica que, para cada 100 MWh que o RN poderia produzir, apenas 86 MWh foram gerados. De acordo com especialistas, essa realidade não é uma surpresa, mas gera preocupações significativas para o futuro do setor.
Impacto e Contexto do Curtailment
A Volt Robotics informou que o RN enfrentou cortes de 11,27 milhões de MWh no ano passado, com a energia eólica respondendo por aproximadamente 92,79% desse total, ou seja, cerca de 10,45 milhões de MWh. A energia fotovoltaica, por sua vez, contribuiu com 7,21%, totalizando 0,81 milhões de MWh. Quando analisamos o preço de liquidação das diferenças (PLD), o estado registrou um prejuízo de R$ 1,88 bilhão. O cálculo por contrato, que considera o valor que os geradores deixaram de faturar, reflete a perda econômica total, enquanto o PLD, que é baseado em curto prazo, mostra uma redução geralmente menor em períodos de excesso de energia.
Os dados da consultoria revelaram que, em todo o Brasil, cerca de 20% da energia renovável que poderia ser gerada foi perdida, totalizando R$ 6,5 bilhões em impactos para o setor, um aumento de 195% em comparação a 2024, quando o impacto foi de R$ 2,2 bilhões. Esse cenário difícil coloca em evidência as deficiências estruturais que precisam ser abordadas para evitar perdas futuras.
Soluções e Desafios Futuros
O curtailment, conforme definido pelo ONS, ocorre em situações em que a produção de energia supera o consumo ou quando as linhas de transmissão não conseguem acomodar o excesso. Nessas circunstâncias, a redução ou desligamento da produção é uma medida técnica necessária para garantir a integridade do Sistema Interligado Nacional (SIN). Especialistas apontam que a expansão das fontes renováveis não tem sido acompanhada pela melhoria nas infraestruturas de transmissão, resultando em um descompasso que leva o ONS a implementar cortes.
Darlan Santos, presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), destaca que a situação não é uma novidade para quem acompanha o setor. Santos nota que, embora o estado tenha ações em andamento para melhorar a infraestrutura, como leilões de transmissão, há um longo caminho pela frente e a expectativa para 2026 não é otimista. Hugo Fonseca, secretário-adjunto de Desenvolvimento Econômico do RN, também observa que o setor está em um momento de transição, com excessos de projetos de geração em andamento, mas ainda necessitando de melhorias estruturais.
Ações e Previsões para o Futuro
As medidas para mitigar os impactos do curtailment incluem leilões planejados para ampliar e modernizar as linhas de transmissão do RN, além de investimentos em soluções de armazenamento de energia. Fonseca acredita que a realização futura de leilões para sistemas de armazenamento pode ser uma solução eficaz, permitindo que a energia excedente gerada seja armazenada e utilizada em momentos de pico de demanda, minimizando assim as perdas. Essa abordagem pode ser complementada pela regulamentação que o governo do estado está trabalhando para a implementação de sistemas de armazenamento de energia por baterias.
A Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) e a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) também alertam para a necessidade de regulamentação adequada para lidar com cortes de geração, enfatizando que o Brasil enfrenta um problema estrutural na utilização plena de suas energias renováveis. A compensação financeira, embora alivie a questão econômica, não resolve a necessidade de avanço em infraestrutura, que é crucial para prevenir que tais cortes se tornem uma constante no setor.
