Iniciativa Inédita no Brasil
O Ministério da Saúde deu início, nesta semana, a um programa voltado para capacitar famílias e cuidadores de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou outras deficiências. Esta ação faz do Brasil o primeiro país nas Américas a implementar tal treinamento como uma política pública de âmbito governamental.
Desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em colaboração com a Unicef, o programa já está presente em mais de 30 países, trazendo experiências internacionais para a formação de cuidadores brasileiros.
De acordo com o Ministério, essa capacitação oferece estratégias práticas para os pais lidarem com o cotidiano das crianças, enfocando o desenvolvimento infantil, a redução de comportamentos desafiadores e a ampliação do acesso a intervenções precoces de qualidade, mesmo antes do diagnóstico formal de TEA.
O treinamento, intitulado Caregiver Skills Training (CST), ou treinamento de habilidades para cuidadores em português, começou no Instituto de Ensino e Pesquisa Alberto Santos Dumont (ISD), localizado em Macaíba, na Grande Natal. A primeira sessão prática contou com a participação de três formadores internacionais da OMS.
Desenvolvimento de Supervisores Especializados
A formação inicial reuniu 24 profissionais que atuarão como supervisores nesta implementação inicial em todo o Brasil. A preparação começou de forma virtual no ano passado e deve ser concluída em junho deste ano.
“Estes profissionais são do Instituto Santos Dumont e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, todos com formação e experiência na área de desenvolvimento infantil”, explicou Arthur Medeiros, coordenador-geral de Saúde da Pessoa com Deficiência do Ministério da Saúde.
A escolha do ISD como sede do treinamento foi motivada pelo seu reconhecimento como um Centro Especializado em Reabilitação, o que o torna uma referência nacional no cuidado a pessoas com deficiência.
Resultados Imediatos nas Famílias
No treinamento, os supervisores não apenas receberam teoria, mas também praticaram as técnicas com famílias de crianças. Robervânia Souza, uma das primeiras mães a participar, destacou que seu filho, que tem 2 anos e enfrenta dificuldades de fala, começou a pronunciar novas palavras após duas sessões do programa. “Eu vi que ele disse ‘uva’, algo que nunca havia falado antes. Fiquei emocionada”, contou.
A fonoaudióloga Luana Aprígio, que participou da formação, ressaltou a importância do programa ao observar mudanças significativas nas interações entre as famílias e as crianças, mesmo em tão pouco tempo. “É inspirador ver como, em apenas algumas sessões, as famílias transformam suas abordagens e as crianças demonstram avanços”, disse.
Uma Meta Ambiciosa de Expansão
O Ministério da Saúde tem como meta que os supervisores formem 240 instrutores nos próximos meses, que por sua vez treinarão facilitadores que irão trabalhar diretamente com as famílias. A intenção é escalar o programa para que alcance todos os municípios do país.
A previsão é que cerca de 1,3 mil famílias sejam beneficiadas já na fase de formação, até 2026, com a expectativa de que, a partir de 2027, o alcance se amplie para até 72 mil famílias em todo o Brasil.
A Importância do Atendimento Precoce
Arthur Medeiros enfatizou a relevância de um trabalho precoce com crianças que apresentam deficiência ou TEA, afirmando que a estimulação adequada é crucial para o desenvolvimento saudável. “Se não estimuladas, essas crianças podem enfrentar dificuldades de saúde e sociais no futuro”, alertou.
O programa visa garantir que pais e cuidadores recebam a orientação necessária para aplicar as técnicas no dia a dia, assegurando um ambiente propício ao desenvolvimento infantil. A padronização das técnicas, segundo Medeiros, é um aspecto fundamental do programa, que busca replicar sua eficácia globalmente, alinhando as práticas no Brasil com as aplicadas em outros países, como a China.
Adesão Estadual e Municipal
Integrado às ações do Programa Agora Tem Especialistas e alinhado ao Novo Viver Sem Limite, o programa prevê uma colaboração ativa entre o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais e municipais. O gestor local terá a flexibilidade de aderir ou não à iniciativa, e, se optar por participar, poderá indicar os profissionais que farão parte do programa.
O Ministério da Saúde estima um investimento de aproximadamente R$ 13 milhões até 2030 para a implementação e formação de profissionais nos Centros Especializados em Reabilitação em todo o Brasil.
