Uma Nova Dinâmica Política em Minas Gerais
Nas próximas eleições, os eleitores do Partido dos Trabalhadores (PT) em Minas Gerais enfrentam uma escolha inusitada: apoiar um candidato que parece distante dos ideais trabalhistas. O presidente Lula tem insistido na candidatura do senador Rodrigo Pacheco (PSD), buscando seu apoio para a disputa ao governo estadual.
Pacheco, antes de entrar para a política, teve uma carreira consolidada na advocacia, atuando em segmentos do direito empresarial e criminal, onde representou grandes corporações e clientes influentes. Ele vem de uma família tradicional do empresariado mineiro, e essa origem nunca foi ocultada. Contudo, o que intriga é a desconexão entre a trajetória do candidato preferido por Lula e o histórico de um partido que emergiu da luta sindical e da mobilização popular.
Esse não é um texto que busca nostalgia por um PT idealizado que já não existe mais. Desde 2002, as ideologias de trabalho e capital têm coexistido dentro do partido. No entanto, o que se observa em Minas é uma inversão de papéis: o que antes era a base do partido parece agora ser secundário diante de escolhas que privilegiam elites e herdeiros políticos.
As Opções do PT Mineiro
Um olhar mais atento revela que o PT de Minas não acredita na possibilidade de novas lideranças surgirem de seus próprios quadros. Figuras como Marília Campos e Margarida Salomão, que poderiam representar essa renovação, frequentemente são deixadas de lado. Para exemplificar, o plano B do partido recai sobre Josué Alencar, que almeja herdar o capital político deixado por seu pai, o ex-vice-presidente José Alencar, falecido há mais de uma década. Alencar permanece em contato próximo com Lula e o empresariado, tendo ocupado a presidência da Fiesp e atualmente lidando com a recuperação judicial da Coteminas, empresa com bilhões em dívidas. Em 2014, ele se candidatou ao Senado por Minas, mas não obteve sucesso e declarou um patrimônio que girava em torno de 100 milhões de reais.
A terceira opção considerada é Alexandre Kalil (PDT), que herdou empreiteiras de sua família e a liderança sobre o Atlético Mineiro. Kalil utilizou seu sucesso no futebol para conquistar a política, servindo como prefeito de Belo Horizonte por dois mandatos entre 2017 e 2022. Em 2022, apoiado oficialmente pelo PT, Kalil tentou a vaga ao governo de Minas, mas não passou do primeiro turno. Observadores da campanha perceberam que sua imagem pode ter gerado mais aversão entre os petistas do que votos afluentes.
O que se assiste, assim, é uma perplexidade dentro do PT mineiro, que ao invés de apostar em novas figuras, parece se agarrar a alianças com nomes do passado. Em contrapartida, a ultradireita se fortalece, com figuras como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) se destacando. O vice-governador Mateus Simões recentemente trocou o Partido Novo pelo PSD, à procura de mais recursos e estrutura de campanha.
O Enigma de Rodrigo Pacheco
Rodrigo Pacheco, a opção prioritária de Lula, sempre teve ambições maiores: sua intenção era ser indicado ao STF. Apesar de ter articulado habilidosamente para essa vaga, acabou sendo preterido por Jorge Messias, o que lhe deixou bastante insatisfeito. Após esse episódio, Pacheco começou a se movimentar para mudar de partido, deixando o PSD, que agora abriga Mateus Simões, e considerando uma filiação ao União Brasil.
O União Brasil, que possui uma história que remonta à Arena da ditadura, passou por várias mudanças de nomenclatura e ideologia ao longo dos anos, e agora se apresenta como uma alternativa moderada. Apesar de suas raízes controversas, o partido se tornou um abrigo atraente para o PT, que busca restaurar sua influência política em Minas.
Pacheco, por outro lado, cultivou uma imagem conciliadora, atuando como um elo entre diferentes interesses políticos, tanto com o bolsonarismo quanto com a esquerda representada por Lula. Vale lembrar que, quando foi eleito senador, ele ainda era filiado ao DEM, ancestral do União Brasil.
Desafios e o Futuro do PT em Minas
Recentemente, documentos da Polícia Federal que mencionam Pacheco na Operação Rejeito, que investiga um esquema bilionário de corrupção no setor de mineração, trouxeram ainda mais controvérsia. A investigação, que envolve fraudes em licenças ambientais, foi levada ao STF devido ao foro privilegiado do senador.
Com o partido focando em figuras influentes e herdeiros da elite, os petistas que poderiam representar uma nova geração são ignorados. Marília Campos e Margarida Salomão continuam a ser deixadas de lado, enquanto as tentativas de renovação na liderança são frustradas. Marília, por exemplo, expressou seu descontentamento com a direção do partido e foi apresentada como pré-candidata ao Senado, mas pode ser preterida em favor de uma aliança política.
Lideranças de destaque como a deputada estadual Beatriz Cerqueira e a ministra Macaé Evaristo também são esquecidas, apesar de suas contribuições significativas nas áreas de educação e direitos humanos. O histórico recente de candidaturas do PT em Belo Horizonte, onde resultados foram frustrantes, apenas reforça a percepção de que o partido não está conseguindo se conectar com novos setores da sociedade.
Conclusão: O Custo Político da Conciliação
Minas Gerais, sendo o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, sempre teve um papel crucial nas eleições presidenciais. A história mostra que quem perde em Minas tem grandes dificuldades para vencer a nível nacional. Apesar dessa realidade, o PT parece incapaz de formular um projeto autêntico para o estado. As alianças feitas no passado, como a com Aécio Neves, deixaram sequelas que ainda são sentidas, levando a um vácuo político que facilitou a ascensão de partidos como o Novo.
Curiosamente, o legado de governanças anteriores abriu espaço para novas lideranças, especialmente no PSOL e em espaços culturais, enquanto o PT insiste em sua estratégia de alianças com o centro e a direita. Com as escolhas atuais, muitos dos militantes reconhecem que, mesmo que o partido vença, pouco se pode esperar em termos de benefícios para os trabalhadores. Em Minas Gerais, o PT não apenas se distanciou do petismo, mas parece tê-lo abandonado completamente.
