Trajetória de um Político Camaleão
Raul Belens Costa Jungmann Pinto, que faleceu neste domingo (18/1), em Brasília, aos 73 anos, foi um dos personagens mais complexos da política brasileira contemporânea. Conhecido por sua habilidade de navegação entre diferentes espectros políticos, Jungmann era lembrado como um jovem opositor da ditadura militar de 1964, além de ter ocupado papéis significativos em diversos governos. Sua trajetória, que começou nas fileiras do Partido Comunista Brasileiro, passou por experiências como vereador, deputado e ministro, refletiu as tensões e transformações da política nacional.
O ex-ministro ficou famoso por sua atuação durante a reforma agrária no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), logrando aprovar ações que descontentaram tanto ruralistas quanto movimentos sociais como o MST. Essa maleabilidade política, admirada por alguns e criticada por outros, fez de Jungmann uma figura controversa e intrigante.
Das Raízes à Vida Pública
Nascido em Recife em 1952, Jungmann cresceu em um ambiente propício para o ativismo político, tendo seu pai, Sylvio Jungmann, como jornalista. No entanto, sua militância cresceu durante a ditadura, levando-o a deixar Pernambuco em busca de um espaço para sua voz em São Paulo. Em 1974, filiou-se ao MDB, integrando a ala que aliava comunistas à oposição formal ao regime militar.
Com a abertura política nos anos 80, Jungmann se juntou ao Partido Comunista do Brasil e dedicou-se ao trabalho em ONGs e como consultor. Ele mesmo costumava dizer que ‘quem foi comunista nunca deixa de ser’, mantendo sempre um humor peculiar, inclusive compartilhando memes no WhatsApp que remetiam aos tempos da velha guarda.
Ministro e Negociador
Jungmann entrou para a administração pública em 1990, quando assumiu a Secretaria de Planejamento de Pernambuco. Dois anos depois, sua trajetória o trouxe para Brasília, onde se destacou como o número dois do Ministério do Planejamento. Seu relacionamento próximo com Fernando Henrique Cardoso o levou a ser convidado a chefiar o Ibama, onde tornou-se conhecido por sua rigidez no combate à grilagem.
Em 1996, Jungmann foi nomeado ministro da Reforma Agrária, cargo que ocupou até 2002. Sua gestão foi marcada por um aumento significativo no número de assentamentos, mas também por conflitos com ruralistas e movimentos de sem-terra. Na época, os ruralistas o viam como um adversário, enquanto os sem-terra o pressionavam para ações mais ousadas.
Um Político em Constante Movimento
Em 2002, Jungmann se elegeu deputado pelo PPS e se tornou uma figura chave nas articulações políticas de Brasília, mantendo sempre sua imagem de ‘boa fonte’ para os jornalistas. Acesso aos bastidores do poder e um jeito de contar histórias cativante o tornaram respeitado, mesmo entre adversários.
Durante sua carreira política, Jungmann teve um breve retorno ao Recife como vereador e, ao longo dos anos, se aproximou de figuras políticas influentes, como o vice-presidente Michel Temer, participando ativamente da oposição ao governo Dilma Rousseff. Ele assinou pedidos que resultaram na suspensão de Lula como chefe da Casa Civil, em um momento crítico da história política brasileira.
Desafios no Comando da Defesa
Após o golpe de 2016, que resultou no impeachment de Dilma, Jungmann foi nomeado ministro da Defesa por Temer, tendo um papel destacado nas relações entre os militares e o governo. Sob sua gestão, o Exército começou a retornar ao cenário político, com o fortalecimento de figuras como o general Eduardo Villas-Boas.
Em 2018, enfrentou uma das maiores crises, ao ser designado para o recém-criado Ministério da Segurança Pública, onde coordenou a intervenção no Rio de Janeiro. Os resultados foram considerados insatisfatórios, especialmente após o assassinato da vereadora Marielle Franco, um episódio que eclodiu debates intensos sobre segurança e direitos humanos.
Últimos Anos e Legado
Após deixar o governo, Jungmann atuou nos bastidores da política durante o governo Jair Bolsonaro, mantendo-se distanciado da administração, mas influente nas discussões sobre segurança e política militar. Em 2021, escreveu em um artigo que alertava sobre o risco de um golpe, refletindo seu compromisso com a democracia.
Seu último desafio foi à frente da associação das mineradoras, onde buscou mudar a imagem do setor em relação a questões ambientais. Jungmann lutou contra problemas de saúde, descobrindo tumores no pâncreas e passando por um tratamento que se tornou paliativo. Ele deixou filhos e uma companheira, Natalie, com quem compartilhou seus últimos anos em Brasília.
