Um Legado Cinematográfico
Antes da exibição de “Nouvelle Vague”, um amigo compartilhou comigo suas apreensões acerca do filme de Richard Linklater. Entre os temores expressos, destacavam-se o ‘nostalgismo’ e o fetichismo em relação ao passado, que nos levam a celebrar figuras e obras cinematográficas apenas pela reverência que geram. Concordei plenamente com a análise. As primeiras cenas do longa parecem corroborar essas inquietações. A presença de atores que lembram Godard, Truffaut e Chabrol na tela causa um certo desconforto, dada a nítida diferença entre a representação e as figuras originais, mais próximas de caricaturas do que de homenagens.
Com o tempo, porém, essa impressão inicial se esvai, em grande parte devido ao acúmulo de referências da época. É a personalidade de Godard que, com seu humor e forma peculiar de enxergar a vida e a arte, acaba prevalecendo. Desde os desafios enfrentados na produção de “Acossado”, a sua busca por um cinema que rompesse com as tradicionais convenções se torna evidente. É notável observar como seus colaboradores reagem ao processo: ora com receio, devido à natureza inusitada e amadora do projeto, ora com entusiasmo ao desfrutarem da liberdade criativa proporcionada.
O Método Godard
Jean-Luc Godard acreditava que a verdadeira invenção no cinema envolve a desconstrução dos mitos e das hierarquias preestabelecidas que, em sua visão, tornavam a sétima arte lenta e desinteressante. Para ele, o cinema é uma forma de arte que se fundamenta em ideias, não em técnicas elaboradas. O financiamento, segundo Godard, deveria ser um mero detalhe, nunca o foco principal.
O que Linklater apresenta em “Nouvelle Vague” é uma exemplificação radical desse princípio. As histórias sobre a produção são conhecidas: desde o momento em que Godard, no primeiro dia de gravações, interrompeu as filmagens após apenas duas horas, até as preocupações do produtor Pierre Braunberger e de Jean Seberg sobre o impacto desse trabalho em suas carreiras. O próprio cinema, assim como o método que Godard defendia, é uma prática de ruptura.
Ruptura e Liberdade Criativa
Linklater captura essa ruptura em seu filme, que se transforma dia após dia, sem abrir mão da liberdade conquistada com esforço. É um registro que vai além da simples repetição de uma história antiga: oferece uma experiência imersiva que revela o espírito revolucionário de Godard. Ao revisitar essas práticas, Linklater também nos convida a refletir sobre o estado atual do cinema.
Hoje, a indústria cinematográfica é dominada por grandes maquinários, com equipes extensas e orçamentos astronômicos que, apesar de impressionantes, frequentemente entregam produções que se concentram no que Glauber Rocha denominava ‘espetáculo’, ou seja, uma representação distorcida da realidade. Sessenta e cinco anos se passaram e, embora as técnicas tenham evoluído, o modo de fazer cinema se tornou mais rígido, priorizando números e lucro em detrimento da arte.
Um Chamado à Aventura Cinematográfica
Apesar de minhas reservas em relação à filmografia de Linklater, é inegável que ele tem se posicionado contra essa tendência industrial. Seu projeto de filmar a evolução de seu filho ao longo de uma década é um exemplo claro de sua busca por um cinema mais autêntico. Da mesma forma, a série britânica “Adolescência” demonstra que é possível utilizar a tecnologia contemporânea para transmitir experiências únicas ao público.
Finalmente, “Nouvelle Vague” não é uma mera ode ao passado glorioso do cinema, mas um convite a reexplorar o espírito de aventura que pode resgatar a arte cinematográfica. Produzir arte, mesmo que de forma amadora, requer paixão e determinação, e essa é uma tarefa que, embora desafiadora, não é impossível.
