A Revolução da Identidade na Literatura de Toni Grado
Em 2021, o arquiteto e escritor paulistano Toni Grado deu início a uma ousada jornada literária com o lançamento de “Não Homem Não Branco – Eleições, trapaças e carros possantes”. Este primeiro livro marcou o início de uma tetralogia que pretende explorar a teoria da esquizoanálise, desenvolvida pelos renomados filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Seguindo essa trajetória, dois outros volumes foram lançados: “Não Homem Não Branco – O revolucionário, a surra e os fatos mal passados” (2023) e também “Campanha, alianças e impostores”, que chegou ao público em novembro do ano passado, publicado pela Nine Editorial. Cada um deles revela camadas complexas que convidam o leitor a mergulhar no pensamento crítico de Deleuze e Guattari.
Desconstruindo a Psicanálise Tradicional
Para compreender plenamente a profundidade da saga, é fundamental revisitar as ideias dos filósofos. A esquizoanálise, proposta na década de 1970 nas obras “O anti-Édipo” e “Mil platôs”, emerge como uma alternativa inovadora aos paradigmas freudianos e lacanianos que dominam a psicanálise. Enquanto essas tradições posicionam o triângulo familiar como o núcleo da formação do sujeito, Deleuze e Guattari transformam o desejo em uma força criativa e produtiva, longe da ideia de falta.
O conceito de “esquizo” simboliza aqueles que se afastam dos modelos normativos que buscam aprisionar o desejo. Nesse novo olhar, o sujeito não é desorganizado, mas sim alguém que experimenta a vida em fluxos, conexões e desvios. Para isso, surgem três conceitos essenciais: territorialização, desterritorialização e reterritorialização. Territorializar envolve o ato de fixar; desterritorializar, romper e abrir novos caminhos; enquanto reterritorializar reorganiza as experiências após essas transições.
Captura e Liberdade no Contexto Social
Assim, a esquizoanálise se transforma em uma ferramenta vital para analisar o contínuo movimento entre captura e escape, refletindo tanto no plano psíquico quanto no social e artístico. O autor destaca a família, o Estado e a moral como estruturas que atuam como mecanismos de captura, tentando domesticar a potência criativa do desejo.
Ao contextualizar essa análise, Grado apresenta sua saga “Não Homem Não Branco”, que ele define como um projeto de “filosofia delirante”. A narrativa acontece em uma metrópole fictícia chamada Cravos e gira em torno de uma eleição para o cargo de prefeito. De um lado, temos Robert Kotac, um banqueiro direitista alucinado e amante de rachas; do outro, Alexandre Dragum, um esquerdista obstinado e chefe de campanha do principal partido de oposição.
Conflitos e Tramas em Ascensão
O confronto entre esses personagens se intensifica após o brutal assassinato de um engenheiro, supostamente cometido por um dos líderes de Não Branco, uma figura importante do tráfico local em um bairro estratégico para a disputa eleitoral. Essa tragédia leva a uma guerra suja entre Kotac e Dragum, criando espaço para a entrada de Não Homem, uma professora universitária andrógina que surge como candidata independente.
No segundo volume da saga, a competição política se torna ainda mais acirrada, com o autor aprofundando a história dos protagonistas. O leitor é levado a descobrir a origem do ódio de Dragum por Kotac, revelando um episódio marcante da juventude que influencia a obsessão do banqueiro pela vitória. A trajetória de Não Homem também é explorada, repleta de violência sexual e reflexões sobre as imposições sociais que moldam o gênero.
O Olhar Crítico de Grado
Ao longo do terceiro volume, a relação entre Não Branco e Não Homem ganha destaque. Vindo de realidades distintas, o líder do tráfico decide apoiar a candidatura da professora, um ato que gera estranhamento geral, o que Grado se propõe a explorar em sua narrativa. “Gosto da ideia do ‘não ser’ como algo que desafia o mundo”, afirma o autor, referindo-se aos nomes de seus personagens. “Estamos saturados de categorização que, no fim, não facilitam a felicidade nem nas relações pessoais”.
Em preparação para o quarto e último volume da tetralogia, previsto para o primeiro semestre de 2026, Grado promete amarrar as linhas de fuga de sua proposta literária, encerrando a trajetória de seus personagens de maneira intrigante e filosófica.
