Uma Reflexão Profunda sobre Memória e Identidade
Atualmente em cartaz na Arena B3, o solo ‘O Cachorro Que Se Recusou a Morrer’, protagonizado pelo ator e dramaturgo Samir Murad, leva o público a uma jornada intensa que confronta temas como imigração, memória e saúde mental. A peça, que será apresentada neste final de semana, dias 17 e 18 de janeiro, com sessões às 14h30 e 17h00, não se apoia em explicações fáceis ou catarses artificiais. Ao contrário, Murad oferece um espetáculo de risco, onde sua própria história se entrelaça com questões universais sem pedir empatia antecipada.
No diálogo com o público, o ator adota uma postura que oscila entre humor seco e drama direto, criando uma obra que evita tanto a reverência quanto a autopiedade, levando o espectador a refletir sobre o próprio passado. Em uma entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, Murad compartilha seu processo criativo e a importância do teatro como espaço para contar essas histórias sem se transformar em um espetáculo autocentrado.
A Aceitação do Caos nas Memórias
Durante a entrevista, Murad respondeu a uma pergunta sobre como lida com suas lembranças familiares e se o teatro ajuda a organizar o passado ou a aceitar seu caos. “A aceitação do caos provocado pelas lembranças é fundamental para um verdadeiro processo criativo”, afirmou. Ele explica que, como ator e criador, a memória se torna uma extensão de seu corpo e, ao escrever, já direciona seus textos para a cena, permitindo uma conexão profunda com o público.
O espetáculo aborda temas delicados como imigração e pertencimento e, ao mesmo tempo, questiona a própria ideia de origem e como ela nos define. Murad destaca que qualquer classificação que rotule o ser humano pode ser problemática. Ele acredita que a busca pela origem, embora significativa, não deve ser uma prisão, mas sim uma oportunidade de redescoberta.
O Humor como Ferramenta de Sobrevivência
Ao ser questionado sobre o uso do humor no espetáculo, Murad comenta que este não é apenas um recurso para manter leveza, mas também uma parte intrínseca da narrativa. “Meu pai era um contador de histórias muito engraçado”, diz ele, ressaltando que o humor tem um papel essencial em sua percepção da vida, mesmo quando as histórias são pesadas. Essa abordagem permite ao público refletir sobre a seriedade do que é apresentado, trazendo um elemento cômico que desafia a solenidade excessiva.
Herança Cultural: Legado ou Cobrança?
Filho de imigrantes libaneses, Samir Murad também discute como sua herança cultural moldou sua trajetória. Ele destaca que a pressão para seguir carreiras tradicionais é uma realidade em muitas famílias de imigrantes, mas enfatiza que a arte sempre foi sua forma de expressão e libertação. “Eu transformei meu legado dramático em teatro”, afirma, sugerindo que seu trabalho artístico é uma maneira de explorar sua identidade e história.
O Corpo como Instrumento de Narrativa
Quando questionado sobre a importância do corpo na atuação, Murad enfatiza que este é o principal instrumento de um ator. “O corpo é confiável, mas também um campo de conflitos criativos”, explica. Para ele, essa dualidade é vital para contar histórias de maneiras diferentes, e o ator deve sempre buscar a melhor forma de compartilhar sua narrativa.
Um Trabalho Autobiográfico e a Urgência Criativa
Murad refuta a ideia de que está retornando a um trabalho autobiográfico, afirmando que este projeto é, na verdade, a culminação de anos de pesquisa e desenvolvimento. “Esse trabalho é o coroamento de uma quadrilogia que começou em 2000”, revela, destacando que todos os seus solos anteriores alimentam a narrativa de ‘O Cachorro…’.
Intimidade no Teatro: Risco e Conexão
Sobre a intimidade que seu trabalho cria com o público, Samir acredita que o teatro é o espaço apropriado para esse risco. Ele argumenta que a conexão entre ator e espectador não deve ser confundida com exposição, mas sim entendida como uma interação profunda que merece ser explorada.
Provocando Reflexões sobre Imigração
Por fim, Murad expressa sua expectativa de provocar desconforto no público ao abordar os traumas da imigração. “O drama da imigração é um problema atual e mundial”, afirma, ressaltando que as experiências que ele retrata têm o potencial de ressoar com o público, criando empatia e reflexão sobre uma realidade muitas vezes ignorada.
Após uma intensa jornada de transformar suas memórias em cena, Murad conclui que, ao final, resta a sensação de missão cumprida, uma mistura de esgotamento e urgência para continuar contando histórias. O espetáculo promete ser uma experiência única e reflexiva para todos os que buscam entender os desafios da identidade e pertencimento na sociedade contemporânea.
