Descoberta Rara na Mata Atlântica
Biólogos em Minas Gerais realizaram uma descoberta surpreendente: um sauá albino (Callicebus nigrifrons) foi flagrado por um drone durante um monitoramento na maior área contínua de Mata Atlântica do estado. O registro, feito no Parque Estadual do Rio Doce, é considerado o primeiro caso documentado dessa mutação genética na espécie, revelando a diversidade genética dos primatas da região.
Vanessa Guimarães, bióloga e fundadora do projeto ‘Primatas PERDidos’, expressou sua surpresa em relação ao flagrante. “Nunca havíamos encontrado documentação sobre esse tipo de raridade para a família do sauá, que inclui 63 espécies”, comentou. O registro visual deste primata distinto ocorreu enquanto a equipe monitorava o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), o maior primata das Américas.
Enquanto realizavam sobrevoos na área florestal com um drone equipado com câmeras térmicas e coloridas, um ponto de coloração clara chamou a atenção da equipe. “A câmera térmica detectou a assinatura de calor dos animais e ao investigarmos, a câmera colorida revelou um indivíduo com coloração completamente diferente dos outros”, relatou Vanessa.
Importância Científica da Descoberta
A identificação deste sauá albino é de grande relevância científica, pois representa um evento extremamente raro entre os primatas neotropicais. Essa ocorrência amplia o conhecimento sobre a variabilidade fenotípica da espécie, contribuindo para a compreensão de condições genéticas raras em populações silvestres. Vanessa explicou que essa mutação pode desencadear questões sobre a sobrevivência e viabilidade desses indivíduos em ambientes naturais, uma vez que o albinismo pode impactar aspectos como visão e camuflagem, além de aumentar a suscetibilidade a doenças de pele.
O registro destaca a importância da conservação da diversidade biológica. “A proteção da biodiversidade e do Parque Estadual do Rio Doce é essencial para a fauna da Mata Atlântica. Anomalias como o albinismo podem estar relacionadas a estresses ambientais, como degradação de habitat e fragmentação florestal, o que torna urgente a implementação de ações de conservação efetivas”, enfatizou a primatóloga.
Desafios para a Espécie e O Futuro do Monitoramento
Embora a descoberta tenha ocorrido em novembro de 2024, a notícia só foi divulgada recentemente, após a publicação de um artigo na revista Primates. Desde então, o sauá albino não foi mais avistado, ressaltando a dificuldade de encontrar esse tipo de primata na natureza. Os pesquisadores do projeto ‘Primatas PERDidos’ pretendem continuar suas atividades de monitoramento para proteger essa e outras espécies ameaçadas, como o muriqui-do-norte e o bugio-ruivo. No entanto, enfrentam um desafio significativo devido à falta de financiamento, que impacta diretamente a continuidade dos estudos e ações de conservação.
“É essencial que projetos de conservação recebam apoio financeiro contínuo para manter as ações de monitoramento e promover o conhecimento científico que é crucial para a preservação das espécies da Mata Atlântica”, concluiu Vanessa.
Albinismo e Leucismo: Distinções Importantes
Quando um animal de coloração branca é avistado, geralmente se supõe que se trata de albinismo. Contudo, o leucismo, que também resulta em falta de pigmentação, é uma condição diferente. Vanessa explica que a distinção entre os dois é feita principalmente pela coloração dos olhos e a distribuição da pigmentação. O albinismo é caracterizado pela ausência quase total de melanina, o que afeta a pelagem e a coloração dos olhos, que geralmente são avermelhados, devido à visualização dos vasos sanguíneos.
Por outro lado, o leucismo é uma redução parcial da pigmentação, mantendo a coloração normal dos olhos e afetando predominantemente a pelagem. No caso do sauá registrado, a ausência de pigmentação em várias partes do corpo e a coloração avermelhada dos olhos confirmam a classificação como albino.
Desafios e Sobrevivência dos Primatas
Animais com mutações genéticas raras, como o albinismo, enfrentam desafios adicionais para a sobrevivência em comparação com seus pares normais. Vanessa ressalta que essas mutações podem reduzir as chances de sobrevivência e reprodução na natureza. “A falta de pigmentação pode torná-los mais vulneráveis a doenças de pele e à radiação solar, além de dificultar a camuflagem, tornando-os alvos mais fáceis para predadores”, explicou.
Além disso, o aspecto distinto pode impactar as interações sociais desses primatas, levando a uma possível rejeição por parte dos outros membros do grupo. O sauá, uma espécie endêmica da Mata Atlântica, é ágil e se destaca por sua forte vocalização, mas como muitas espécies, enfrenta riscos com a fragmentação de habitat e a pressão humana.
Com a descoberta deste sauá albino, fica evidente que a biodiversidade da Mata Atlântica ainda guarda segredos valiosos por serem desvendados, enfatizando a necessidade urgente de ações de conservação e monitoramento contínuo.
