Uma Reflexão sobre a Infância e a Perda
No conto “Pinguinho”, escrito por Viriato Corrêa (1884-1967), a morte é encarada de maneira paradoxal pelas crianças de um pequeno povoado. Para elas, a morte não é motivo de lamento, mas de celebração. A partida de alguém transforma o dia em festa, simbolizando a liberdade de brincar. Em meio a risos e brincadeiras, velórios se tornam momentos de algazarra infantil. Entretanto, essa realidade muda com a perda do menino Pinguinho, que traz, pela primeira vez, a experiência concreta da ausência e da dor à infância.
Esse tema complexo é o ponto de partida do espetáculo “Saudade”, apresentado pela companhia paulista Os Geraldos, que se encontra em cartaz no Teatro 1 do CCBB-BH até o dia 2 de fevereiro. Inspirado no conto de Corrêa, a montagem expande o universo literário ao incorporar elementos surrealistas, musicais e visuais, criando um diálogo direto com a lógica emocional que permeia a infância, onde memória, fantasia e dor coexistem sem hierarquias.
Com a dramaturgia elaborada por Julia Cavalcanti e Paula Guerreiro, e sob a direção de Douglas Novais, “Saudade” constrói sua narrativa a partir da integração entre palavras, música ao vivo e uma composição visual marcante. Objetos simples, como galhos, sabugos de milho e tecidos de algodão cru, são utilizados em cena para evocar vestígios de um Brasil interiorano, despertando memórias coletivas e afetivas que ressoam em cada espectador.
Proposta Teatral Popular
“Não se trata apenas de ilustrar a narrativa original”, destaca o diretor. O objetivo é transformar a história em uma experiência sensorial, onde o público é convidado a reconhecer fragmentos de sua própria infância. “A proposta é fazer um teatro popular”, afirma Douglas. O próprio nome do grupo, Os Geraldos, carrega o radical ‘geral’, que reflete a intenção de criar obras acessíveis a todos. O grupo busca valorizar a conexão direta com o público, mesclando técnica e a vivência de quem realmente conhece o Brasil.
Uma Investigação Artística em Tempos de Pandemia
O processo criativo de “Saudade” teve início durante a pandemia, quando o grupo se isolou no sítio da mãe de Douglas com a intenção de transformar aquele período de quarentena em um tempo de investigação artística. O livro “Variações sobre o prazer”, de Rubem Alves, que aborda o prazer como uma dimensão essencial da vida mesmo em tempos difíceis, tornou-se uma referência importante para a concepção do espetáculo.
Com a reabertura dos teatros, Os Geraldos retomaram a circulação de trabalhos anteriores, como “Cordel do amor sem fim ou A flor do Chico” e “Ubu rei”, ambos sob a direção de Gabriel Vilela. Durante uma temporada no Maranhão, o grupo teve contato com o conto de Viriato Corrêa, o que resultou na incorporação deste texto ao projeto de “Saudade”.
Uma Jornada pela Europa e o Enriquecimento do Espetáculo
No ano de 2024, uma parte significativa da criação ocorreu na Europa, em uma residência artística no Teatre Nu, localizado em Sant Martí de Tous, na Espanha. Apesar de apenas três integrantes terem participado oficialmente, cerca de 20 artistas da companhia viajaram juntos, enriquecendo o espetáculo com novas influências.
Além da Espanha, o grupo passou pela França, Itália e Inglaterra, coletando objetos e materiais ao longo do caminho. “Da França trouxemos figurinos e adereços; da Itália, uma capa de chuva com desenhos inspirados em Fra Angelico; e da Espanha, tecidos com estampas que remetem às obras de Gaudí”, enumera Douglas.
A Importância do Coral na Experiência Teatral
O grupo também realizou uma imersão em cidades históricas de Minas Gerais, visitando igrejas e teatros em locais como São João del-Rei, Tiradentes, Ouro Preto e Diamantina. O objetivo dessa pesquisa era compreender a arquitetura barroca desses espaços e explorar como essa espacialidade poderia ser expressa por meio de um coral.
“O coro é fundamental em ‘Saudade’. As canções populares brasileiras, francesas, espanholas e italianas, cantadas em diferentes idiomas, reforçam a dimensão coletiva da experiência. A influência da arquitetura barroca e do teatro grego é notável na forma como as vozes moldam o espaço sonoro”, explica o diretor.
Durante o último ano, “Saudade” foi apresentado em ensaios abertos em Belém e em diversos municípios do interior paulista. Cada apresentação proporcionou ao grupo novos materiais que foram incorporados ao espetáculo, como colares trazidos do Pará, agora usados pelos atores em cena.
O resultado final é uma obra em constante transformação, que escuta e se adapta. Ao expandir o conto de Viriato Corrêa por meio da música, do coral e da estética visual, “Saudade” oferece uma vivência que ultrapassa a mera adaptação literária. O espetáculo convida o público a atravessar, coletivamente, o delicado espaço onde infância, perda e memória se entrelaçam.
