A trajetória de Jair Bolsonaro e o impacto de sua saúde nas eleições de 2026
O dia 6 de setembro de 2018 é uma data que ficou marcada na memória coletiva do Brasil. A partir da porta da Santa Casa de Misericórdia em Juiz de Fora (MG), Flávio Bolsonaro, um dos filhos do ex-presidente, fez uma declaração que ecoou por todo o país: “Vocês acabaram de eleger o presidente!”. Sua fala, que se seguiu à facada que o pai sofreu durante um ato de campanha, refletia a tensão e esperança que cercavam o momento. Naquela época, Jair Bolsonaro liderava as pesquisas eleitorais, mas enfrentava um cenário de alta rejeição. O ataque aconteceu quando ele foi atingido pelo servente de pedreiro Adelio Bispo de Oliveira, e, logo após, o ex-presidente teve que ser socorrido, gemendo de dor e sendo carregado por apoiadores havia poucos instantes.
O atentado alterou radicalmente a dinâmica da campanha eleitoral. Enquanto Bolsonaro passava por uma cirurgia de emergência, seus adversários, como Geraldo Alckmin, suspenderam eventos e ataques, seguindo a recomendação dos marqueteiros: não era apropriado criticar um candidato em estado crítico. Essa situação gerou um efeito de empatia que humanizou Bolsonaro, reduzindo o espaço para críticas e ampliando sua presença nas redes sociais, um aspecto fundamental no cenário político atual. A facada, embora não tenha sido o único fator, se mostrou crucial para alavancar a candidatura de Bolsonaro à presidência, um desenvolvimento que culminou em sua vitória histórica.
Nesta quarta-feira, exatamente sete anos após aquele evento fatídico, Jair Bolsonaro foi levado ao Hospital DF Star, em Brasília, às 11h25, para avaliações médicas. Ele deixou o hospital por volta das 17h para retornar à sede da Polícia Federal (PF). A autorização para a ida ao hospital foi concedida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após Bolsonaro sofrer uma queda em sua cela. A ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, relatou que ele caiu e bateu a cabeça ao tentar se levantar. A situação foi agravada por uma crise que teria ocorrido durante a noite, mas que só foi atendida pela manhã, conforme anunciou Michelle em suas redes sociais.
Dias antes desse incidente, Bolsonaro já havia recebido alta hospitalar após ser submetido a uma cirurgia para correção de hérnia inguinal bilateral e outra intervenção devido a crises persistentes de soluço. A defesa do ex-presidente pediu a conversão de sua pena em prisão domiciliar, argumento que foi recusado pelo STF, que alegou não haver um agravamento significativo no estado de saúde de Bolsonaro.
O cardiologista Brasil Caiado descartou a hipótese de convulsão, afirmando que a queda ocorreu devido a um desequilíbrio. Os exames realizados indicaram um traumatismo craniano leve, sem lesões mais graves. Apesar dos episódios de tontura e lapsos de memória, o médico considerou o quadro clínico não alarmante, embora tenha mencionado o risco de interações medicamentosas. Diante disso, fica evidente que a saúde de Bolsonaro é frágil, consequência das sequelas deixadas pela facada em 2018.
Transferência de votos e o cenário eleitoral
Desde a tentativa frustrada de fuga, quando violou as condições da tornozeleira eletrônica, o ex-presidente se tornou uma figura constante nas manchetes, impulsionado pelas declarações de membros da família, especialmente Flávio e Carlos Bolsonaro. Cada internação e retorno à PF reforça a narrativa de vitimização que pode ser explorada politicamente. O principal beneficiário dessa situação é Flávio Bolsonaro, que agora atua como um avatar eleitoral do pai.
Embora Jair Bolsonaro esteja inelegível e cumprindo pena, seu filho Flávio está ganhando visibilidade nas pesquisas eleitorais. As últimas sondagens mostram que, enquanto Lula lidera com 41% das intenções de voto, Flávio Bolsonaro aparece com 18%, segundo o DataFolha de 6 de dezembro. Outros candidatos, como Ratinho Junior, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, seguem atrás, mas a polarização entre Lula e os Bolsonaros permanece evidente. Brancos e nulos totalizam 13%, enquanto 3% dos entrevistados não se manifestaram.
As futuras pesquisas devem avaliar como a saúde de Jair Bolsonaro influencia o desempenho eleitoral de Flávio. A insistência da família e dos advogados em converter sua pena em prisão domiciliar baseia-se na alegação de que seu estado de saúde é crítico. Caso essa solicitação não seja atendida, a narrativa de vitimização poderá se intensificar, gerando repercussões políticas incertas, mas potencialmente significativas. O cenário é delicado, especialmente com as declarações de familiares, que não descartam a possibilidade de um agravamento no quadro de saúde do ex-presidente.
Involuntariamente, o ministro Alexandre de Moraes, responsável pela execução da pena, está se tornando um aliado na construção da narrativa em torno de Flávio Bolsonaro, ao manter Jair em prisão fechada e ressaltar sua fragilidade. Bolsonaro tem uma pena de 27 anos e três meses, com possibilidade de progressão para o semiaberto a partir de 2033. A situação atual reforça a incerteza sobre o futuro eleitoral da família, enquanto o Brasil observa de perto os desdobramentos dessa história.
