Reflexões sobre a saúde mental feminina em meio à desigualdade
O Dia Internacional da Mulher transcende o simbolismo. É um marco que denuncia uma dura realidade: as mulheres adoecem em um país que as sobrecarrega, violenta e, em muitos casos, as elimina. Discutir a saúde mental feminina no Brasil envolve abordar questões profundas de desigualdade estrutural, racismo, feminicídio e uma cultura que naturaliza a dor, especialmente entre as mulheres negras e de baixa renda.
A psicóloga Paula Brito, da cidade de Feira de Santana, observa que esses impactos são claramente visíveis em seu dia a dia clínico. “Atualmente, a depressão é uma das condições que mais afetam a população. E quando olhamos para as mulheres, percebemos que elas apresentam quase o dobro de prevalência em relação aos homens ao longo da vida. Isso está intimamente ligado à sobrecarga emocional, à violência de gênero e à vulnerabilidade econômica, além de pressões estéticas e relacionais”, explica.
Racismo, gênero e a naturalização da dor
A sobrecarga enfrentada pelas mulheres não é um fenômeno recente. Ao longo da história, principalmente as mulheres negras foram condicionadas a assumir papéis de cuidadoras e sustentadoras de estruturas familiares e sociais. O estereótipo da “mulher forte” que tudo suporta é frequentemente utilizado para justificar negligências e violências, mesmo dentro do ambiente familiar.
De acordo com um levantamento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), cerca de 84,5% dos brasileiros apresentam algum nível de preconceito contra mulheres. Essa interseccionalidade entre raça, gênero e classe social intensifica as vulnerabilidades que essas mulheres enfrentam diariamente.
Paula Brito pontua que “a mulher sempre foi convocada a desempenhar múltiplos papéis, muitas vezes simultaneamente. Muitas vezes o trabalho doméstico não é reconhecido como tal. A mulher, enquanto realiza tarefas do lar, pode estar respondendo e-mails do trabalho e atendendo aos filhos ao mesmo tempo. Essas sobrecargas geram efeitos adversos significativos à sua saúde mental”.
A Violência Cotidiana e o Feminicídio: Medo Coletivo
Se nem durante o Carnaval as mulheres se sentem seguras, como se proteger no dia a dia? Um estudo realizado pelo Instituto Locomotiva, publicado em fevereiro do ano passado, revelou que aproximadamente 45% das brasileiras, o que equivale a cerca de 38 milhões, já sofreram algum tipo de assédio durante o Carnaval. Além disso, 78% delas expressaram medo de enfrentar novamente esse tipo de violência.
Essa violência permeia diversas esferas, incluindo instituições públicas e privadas. Dados da Revista Ciência & Saúde Coletiva, divulgados em 2024, indicam que 60% das mulheres que morrem por causas obstétricas no Brasil são negras, revelando uma realidade alarmante de negligência assistencial em relação a esse grupo.
A violência simbólica também é evidente em contextos de poder e no mercado de trabalho. Recentemente, após a eliminação do Red Bull Bragantino no Paulistão, o jogador Gustavo Marques fez um comentário depreciativo sobre a árbitra Daiane Muniz, uma das melhores do país. Essa situação evidencia o machismo estrutural que ainda permeia espaços historicamente dominados por homens.
O feminicídio, por sua vez, representa a brutalidade em seu auge. Dados da pesquisa “Quem são as Mulheres que o Brasil não protege”, da Fundação Friedrich Ebert no Brasil, revelaram que as mortes por razões de gênero aumentaram 176% na última década: de 527 casos em 2015 para 1.455 em 2025, sendo 68% das vítimas negras.
Em 2026, dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) indicam um cenário ainda mais alarmante, com aumento nos casos de feminicídio e evidências sobre o perfil das vítimas e agressores, além dos impactos sociais desses crimes. Na Bahia, por exemplo, entre janeiro e julho do ano passado, houve 57 feminicídios, colocando o estado em terceiro lugar no ranking nacional, atrás de São Paulo e Minas Gerais.
Cada incidente de violência reverbera na coletividade, deixando um medo que impacta a saúde mental de todas as mulheres. Um caso recente noticiado pelo portal g1 revelou que um motorista estuprou uma mulher idosa de 71 anos dentro de um ônibus no Rio de Janeiro; o mesmo indivíduo já havia cometido um crime semelhante em 2019 contra uma jovem de 20 anos.
A Romantização da Exaustão
Paula Brito destaca que “as sobrecargas são imensas. A sociedade exige que as mulheres sejam multitarefas e as considera heroínas, mas até que ponto isso é sustentável?”. Ela enfatiza que se cobrar constantemente resultados pode gerar sérios desdobramentos emocionais: “As mulheres devem entender que precisam cuidar de si e que parar não é um sinal de fraqueza, mas sim uma forma de se reenergizar para continuar lutando”.
Ela finaliza com um importante lembrete: “Reconheçam sua humanidade. Pedir ajuda não é um sinal de fragilidade, mas sim um passo essencial para o autocuidado. Estabeleçam limites e cuidem de sua saúde mental; priorizem a si mesmas, porque cuidar de todas sem olhar para si pode ser exaustivo e contraproducente”.
