Uma Questão de Saúde Pública
A ciência tem cada vez mais evidências de que a solidão e o isolamento social vão além do desconforto emocional. Esses fatores estão associados a uma piora na saúde física e mental, além de um aumento significativo no risco de morte precoce. Um relatório recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que uma em cada seis pessoas no planeta é afetada pela solidão, resultando em mais de 871 mil mortes anuais. Diante desse cenário alarmante, a OMS convoca formuladores de políticas e pesquisadores a tratarem a “saúde social” com a mesma seriedade que a saúde física e mental.
O médico Vivek Murthy, ex-secretário de saúde dos Estados Unidos e autor do livro “Juntos – O poder curativo da conexão humana em um mundo às vezes solitário”, expressou sua surpresa ao descobrir as graves implicações da solidão. Segundo ele, “não tinha ideia de que o isolamento social estava ligado a um aumento significativo de depressão, ansiedade, doenças cardíacas, demência e mortalidade precoce. Isso mostra que a solidão é uma verdadeira ameaça à saúde pública, afetando milhões”.
A Conexão Social e Seus Riscos
O alerta sobre os efeitos do isolamento social já foi reforçado em outro relatório, do U.S. Surgeon General, que destaca a conexão social como uma prioridade para a saúde pública. Os dados são impressionantes: a falta de conexão pode ser tão prejudicial quanto fumar até 15 cigarros por dia. Uma metanálise realizada por Julianne Holt-Lunstad, publicada na PLOS Medicine, mostrou que indivíduos com relações sociais mais robustas têm cerca de 50% mais chances de sobreviver do que aqueles com vínculos mais frágeis.
É essencial entender que estar sozinho não é sinônimo de solidão. Este último é uma experiência subjetiva de desconexão, que pode ocorrer mesmo com uma agenda cheia de compromissos. A OMS esclarece a diferença entre solidão e isolamento social, ressaltando que pessoas de todas as idades podem vivenciar a solidão. Contudo, cerca de um em cada três idosos se sente solitário. Os impactos da solidão, quando se tornam crônicos, são mensuráveis. Um estudo de Harvard revelou que 21% dos entrevistados relataram sentir solidão severa. Quase 70% dos adultos solitários mencionaram solidão socioemocional, ou seja, a sensação de não pertencer a grupos significativos ou de não ter amigos próximos.
A Solidão na Terceira Idade
Pesquisas publicadas na revista Nature mostram que as mulheres idosas (30,9%) e os idosos vivendo em instituições (50,7%) apresentam a maior taxa de solidão. Uma revisão de 189 estudos indicou que quase um em cada quatro idosos em nível global se sente sozinho. Diante da relação da solidão com problemas de saúde, como depressão, ideação suicida e mortalidade, além do crescimento projetado da população idosa, é fundamental que os profissionais de saúde mental e os formuladores de políticas desenvolvam intervenções eficazes para combater a solidão entre os idosos.
A Importância das Relações Sociais
A escritora Heloísa Paiva, autora de “50+ Desperte para a vida e pare de sofrer”, destaca o isolamento social como um risco significativo à saúde mental de mulheres na menopausa e pós-menopausa, períodos que frequentemente implicam mudanças nas conexões sociais e familiares. “Manter amizades é crucial para reduzir o risco de solidão e promover o bem-estar físico. Mulheres com uma rede de apoio emocional tendem a cuidar melhor da saúde e a procurar assistência médica quando necessário”, afirma Heloísa.
Além disso, a autora menciona que ter amigos é essencial para enfrentar os desafios da meia-idade, como alterações hormonais e de humor. “Amigas que compartilham experiências semelhantes oferecem um tipo único de apoio, ajudando a aliviar o estresse e a ansiedade durante a transição da menopausa”, conclui, enfatizando que cultivar amizades é um fator protetor contra a depressão e a ansiedade, mais comuns em mulheres nessa fase da vida.
Ações para Fortalecer Conexões
Heloísa Paiva propõe oito atitudes simples que podem ajudar a transformar intenções em ações concretas para uma vida social mais ativa:
- Fazer uma lista de três conhecidos e enviar uma mensagem convidando para um café ou bate-papo virtual.
- Reconectar-se com amizades antigas de maneira leve, sugerindo um reencontro descontraído.
- Estabelecer um encontro fixo quinzenal com uma amiga ou um grupo para compartilhar confidências.
- Buscar novas amizades em atividades como cursos, clubes de leitura ou voluntariado.
- Priorizar a qualidade das interações, investindo em conversas significativas.
- Praticar a reciprocidade, pedindo apoio e oferecendo ajuda sempre que possível.
- Cuidar da logística inicial de novos relacionamentos, facilitando encontros.
- Valorizar a conexão social como uma prioridade de saúde, dispensando tempo e atenção para cultivá-la.
“Na vida adulta, a amizade se constrói mais por meio do contexto do que pela ‘química instantânea’. Ver a mesma pessoa em um ambiente seguro, repetidamente, fortalece a intimidade. Para 2026, sugiro que cada um agende uma reconexão por semana, começando conversas presenciais em locais de interesse comum”, indica Heloísa.
