O Impacto das Férias na Saúde do Sono das Crianças
Com a chegada das férias escolares, muitos pais notam que seus filhos costumam dormir mais tarde e acordar em horários que fogem da rotina habitual. A falta de compromisso escolar, aliada ao uso excessivo de dispositivos digitais à noite, pode desregular o relógio biológico das crianças. Essa alteração nos hábitos de sono não se resume a um simples cansaço, pois pode afetar diversos aspectos da saúde infantil. Especialistas alertam que a irregularidade dos horários de sono pode impactar o aprendizado, o comportamento e até a imunidade das crianças, especialmente quando essas mudanças se alongam por semanas.
O pneumologista pediátrico Cláudio D’Elia, do Prontobaby – Hospital da Criança, explica que a modificação na rotina típica das férias pode ter efeitos profundos no funcionamento biológico. “O corpo humano opera com um relógio interno que se ajusta conforme a rotina e a exposição à luz natural. Quando não há a necessidade de acordar cedo para a escola, essa sincronização é comprometida. Além disso, a luz artificial das telas durante a noite atrasa a produção de melatonina, o hormônio que induz o sono”, destaca.
Fatores que Influenciam no Sono das Crianças
De acordo com o médico, ao acordar após uma noite longa de sono, a criança pode não sentir sono no início da noite, resultando em um ciclo de horários cada vez mais tardios. “Esse fenômeno não é preguiça ou falta de limites, mas sim uma resposta natural às mudanças de hábitos durante o período de férias”, enfatiza D’Elia.
Além disso, as associações médicas internacionais de medicina do sono recomendam que, em um período de 24 horas, a quantidade ideal de sono varia conforme a idade: bebês devem dormir entre 12 e 16 horas, crianças de 1 a 2 anos entre 11 e 14 horas, de 3 a 5 anos entre 10 a 13 horas, de 6 a 12 anos entre 9 a 12 horas e adolescentes de 8 a 10 horas. Contudo, mais importante do que a quantidade de horas de sono é observar como a criança se comporta durante o dia.
“Quando o sono é suficiente, a criança acorda revigorada, demonstra bom humor e mantém a atenção em níveis adequados para seu desenvolvimento. Sinais como sonolência excessiva, irritação constante e dificuldade para acordar são indicativos de que algo não está certo”, alerta o pneumologista.
A Saúde Infantil e as Consequências da Privação de Sono
A irregularidade ou a falta de sono de qualidade pode comprometer diversas áreas da saúde das crianças. “Dormir pouco prejudica a concentração, a memória e a capacidade de aprendizado, o que afeta diretamente o desempenho escolar. Além disso, essa privação pode impactar a coordenação motora e os reflexos, aumentando o risco de quedas e acidentes”, explica D’Elia.
O médico ressalta também que a falta de sono afeta funções executivas do cérebro, que envolvem planejamento, organização e controle de impulsos. “A falta de descanso pode fazer com que o cérebro perca parcialmente sua capacidade de comando”, acrescenta.
Outro ponto importante é a relação do sono com o sistema imunológico e o crescimento. “A má qualidade do sono provoca desequilíbrios hormonais, aumenta a fome e o risco de obesidade, além de interferir na produção do hormônio do crescimento. Como resultado, a criança se torna mais suscetível a infecções e doenças”, afirma D’Elia.
Como Reorganizar a Rotina de Sono das Crianças
A desorganização dos horários, frequentemente observada nas férias, também provoca um desajuste no ritmo circadiano, que regula inúmeras funções do corpo ao longo do dia. “Dormir e acordar em horários erráticos prejudica o funcionamento dos chamados genes relógio, que controlam a imunidade e o metabolismo”, compara o especialista.
Esse desalinhamento pode gerar irritabilidade, dificuldades de concentração, alterações de humor e até quadros de hiperatividade paradoxal, especialmente em crianças e adolescentes. O uso excessivo de telas durante a noite é outro fator que agrava essa situação. “A luz azul emitida por dispositivos eletrônicos inibe a produção de melatonina, particularmente em crianças, que têm olhos mais sensíveis. Além disso, a interação com jogos e vídeos estimula o cérebro, elevando os níveis de adrenalina e cortisol, o que atrapalha o relaxamento necessário para dormir”, alerta D’Elia.
Dicas para Ajustar o Sono Antes do Retorno às Aulas
Os cochilos fora de hora também podem ser prejudiciais ao descanso noturno. “Esses cochilos reduzem a necessidade natural de sono e podem fazer com que a criança não sinta sono na hora correta. Um cochilo tardio é como um lanche antes do jantar: tira a fome do horário adequado e bagunça toda a rotina”, explica.
Para facilitar a readaptação do sono antes do retorno às aulas, o especialista sugere que o ajuste comece pelo menos duas semanas antes do fim das férias. “É essencial iniciar o ajuste de maneira gradual, antecipando o horário de dormir e acordar em blocos de 15 a 30 minutos a cada poucos dias. A exposição à luz natural pela manhã, um ambiente calmo e escuro no quarto e a suspensão de telas uma hora antes de dormir são medidas fundamentais”, orienta.
Segundo D’Elia, a adaptação varia de criança para criança. “Geralmente, crianças menores se ajustam mais rapidamente, enquanto adolescentes podem ter mais dificuldade devido a alterações naturais no relógio biológico durante a puberdade. O que realmente importa é a consistência nos horários, mesmo nos fins de semana”, conclui.
