Início de uma Nova Era no Agro
Há quatro anos, Rogério Nery não tinha vínculos com o campo. Sua trajetória não seguia o padrão comum do agronegócio brasileiro, que frequentemente envolve sucessões familiares e tradições profundas nas lavouras. Com uma vasta experiência em telecomunicações, Nery atuava como diretor-geral da TV Integração, afiliada da TV Globo em Uberlândia (MG). Porém, em 2022, em meio aos desafios impostos pela pandemia de covid-19, ele decidiu ingressar no mundo da pecuária.
Para concretizar seu novo projeto, Nery adquiriu o Rancho Herança, uma propriedade de 1.000 hectares em Tupaciguara (MG). Ao tomar posse do local, deparou-se com um pasto em condições desfavoráveis, repleto de pragas. “Quando comprei essa terra, só havia espaço e a determinação de fazer algo. Não havia nenhum animal, nem mesmo galinhas”, recorda.
Apesar de se considerar um novato, Nery reconhece o quanto já avançou no uso de tecnologias no agro. “Existem três pilares fundamentais: processos, pessoas e tecnologia. E, na verdade, não tínhamos nenhum deles”, explica. O primeiro passo foi formar uma equipe, iniciando assim uma verdadeira revolução em sua propriedade.
Investimentos que Transformam
Com o objetivo de aumentar seu rebanho, inicialmente, Nery focou em melhorar a pastagem. O resultado foi um rebanho de 1.400 cabeças de gado. Para acompanhar o crescimento da produção, ele investiu em equipamentos como bretes e balanças, e contou com a parceria da startup iRancho, que, segundo ele, revolucionou a gestão do Rancho Herança.
“Antes, apenas 30 animais eram processados no curral por dia. Atualmente, esse número chega a 500”, destaca Nery. Ele também ressalta que a plataforma facilita a inclusão de funcionários analfabetos, já que utiliza recursos de áudio para comunicação.
Com a adoção de dispositivos de monitoramento de peso, alimentação e saúde dos animais, a produtividade das vacas aumentou em até oito vezes. Além disso, a receita bruta do rancho cresceu 13% em um ano.
Conectividade e Comunicação no Campo
Inicialmente, a comunicação na fazenda foi um desafio, especialmente devido à falta de conectividade na remota Tupaciguara. Para contornar essa limitação, Nery instalou uma antena da Starlink e adquiriu rádios para que sua equipe de quatro funcionários pudesse se comunicar de forma eficiente. Ele também trocou os tradicionais cavalos por motocicletas.
“Ainda estamos nos aprimorando, mas essas ações triplicaram a capacidade produtiva da fazenda”, afirma. A história de Nery é um exemplo claro de como a introdução de novas tecnologias e a melhoria na conectividade podem transformar o agronegócio, mesmo em situações adversas.
O Futuro da Tecnologia no Agro
Embora a conectividade de alta velocidade ainda represente um desafio, especialistas indicam que as inovações tecnológicas estão apenas começando a se disseminar no setor. “A transformação digital no campo é imprescindível e deve ser uma prioridade para todos os produtores bem-sucedidos”, afirma Alan Dias, sócio da consultoria PwC. Ele destaca que a verdadeira mudança cultural no campo é essencial para integrar inteligência artificial nas operações agrícolas.
Dias ressalta: “A IA não vai substituir empregos, mas aqueles que a adotarem estarão em vantagem.” Ele observa que a experiência empresarial de Nery trouxe uma nova perspectiva aos desafios do agro, caracterizada pela busca constante por eficiência e melhoria de processos.
A pesquisa CEO Survey da PwC revela que 38% dos executivos do setor agrícola acreditam que a falta de mão de obra qualificada é um obstáculo significativo para o crescimento. De acordo com o levantamento, 4.700 líderes foram consultados, e as conclusões apontam para a urgência em acelerar a transformação no setor agrícola.
Desafios e Oportunidades no Agronegócio
A dificuldade em processar dados gerados pelo campo é uma barreira para muitas propriedades. “Startups focadas na integração de dados estão em ascensão, impulsionadas pela presença de gigantes como Google e Microsoft”, comenta Dias. Por outro lado, a falta de uma boa infraestrutura de conectividade continua sendo um dos principais entraves à inovação.
No Grupo Sementes Gaúcha, por exemplo, a necessidade de internet de alta velocidade é primordial. A empresa, que abrange 9.000 hectares em Minas Gerais, adotou tecnologias desde a colheita até o beneficiamento. Karina Seibt, gerente do grupo, afirma que não há processos sem uso de tecnologia e automação.
O engenheiro agrônomo Alexsandre Pains destaca que a utilização de agricultura de precisão resultou em uma redução de custos com fertilizantes de até 30%. A conexão estabelecida na propriedade, após a instalação de uma torre de internet, fez toda a diferença em suas operações.
Dirceu Ferreira Júnior, da PwC Agtech Innovation, antecipa que a busca por eficiência e redução de custos será uma das principais tendências para 2026, especialmente devido à automação e robótica. “Com o aumento dos custos de mão de obra, a substituição por tecnologia será inevitável”, conclui. O cenário aponta para um futuro onde a combinação de inovação e qualificação profissional será a chave para o sucesso no agro.
