A Captura de Maduro e suas Ramificações Geopolíticas
A detenção de Nicolás Maduro por forças americanas, culminando em sua apresentação algemado em um tribunal de Nova York, vai além de um simples ato de força no cenário da crise venezuelana. O presidente Donald Trump parece sinalizar uma clara mensagem de que o Hemisfério Ocidental é considerado por ele como sua esfera de influência direta, posicionando o continente americano como um ativo tanto econômico quanto de segurança para os Estados Unidos. Esta operação, que foi realizada sem a aprovação do Congresso e justificada como uma ação contra o narcotráfico, foi celebrada publicamente por Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, como uma demonstração de que Washington está disposto a “transformar palavras em ações militares”.
No discurso oficial, os EUA insistem que não estão em guerra contra a Venezuela, mas sim contra organizações criminosas. Contudo, essa narrativa é posta em xeque pelo próprio Trump, ao afirmar que os EUA “governarão” a Venezuela até que ocorra uma transição “segura, adequada e justa”, e ao mencionar explicitamente a intenção de administrar a indústria petrolífera venezuelana como uma compensação histórica. Esse movimento recoloca a lógica da Doutrina Monroe em destaque, agora rebatizada de maneira provocativa como “Doutrina Donroe”.
A Intervenção e suas Repercussões
Trump, ao afirmar que a primazia americana no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionada”, revive uma tradição intervencionista que se estende por dois séculos e que volta a emergir sempre que Washington decide substituir a diplomacia por ações militares. A diferença, nesta ocasião, está na transparência: a intenção não é apenas promover a democracia, mas sim impor uma ordem que garanta controle e acesso a recursos estratégicos. No entanto, a crise não se encerrará com a captura de Maduro, e a retórica neoimperialista parece longe de ser um fechamento.
A posse de Delcy Rodríguez como presidente interina, que foi conduzida por seu irmão Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, contrasta com o status da Venezuela anunciado por Trump. Embora tenha declarado que obteve cooperação de Delcy, o discurso da nova presidente interina denuncia uma “agressão militar ilegítima” e exalta Maduro e Cilia Flores como “heróis”. O regime chavista não desmoronou automaticamente; suas estruturas militares, civis e econômicas permanecem, em grande parte, intactas.
Um Recado Além de Caracas
Contudo, a mensagem de Trump vai além de Caracas. Ao ameaçar o presidente colombiano Gustavo Petro e insinuar que “algo terá de ser feito” com o México, além de recolocar Cuba em foco, Washington deixa claro que a soberania regional é relativa diante dos interesses estratégicos dos EUA. A resposta de Petro, ao admitir, ainda que de forma retórica, a disposição de “pegar em armas” para defender seu país, evidencia o potencial efeito dominó de uma política que reabilita o uso da força como base para a diplomacia, em detrimento da institucionalidade nas relações internacionais.
Implicações no Cenário Internacional
No plano internacional, a repercussão foi imediata. No Conselho de Segurança da ONU, a maioria dos países repudiou a intervenção e invocou a Carta das Nações Unidas. Contudo, essa condenação diplomática pouco altera a realidade: os EUA capturaram um chefe de Estado estrangeiro e o submeteram à sua jurisdição. A fragilização das regras internacionais, já abalada anteriormente, pode, no entanto, beneficiar potências rivais. O senador americano Mark Warner alertou que, se Washington se arroga o direito de sequestrar líderes acusados de crimes, isso pode abrir precedente para ações semelhantes da China sobre Taiwan ou da Rússia em outros contextos.
Militarmente, Trump vê a Venezuela como um ponto estratégico para a influência da China, da Rússia e do Irã na América Latina, não escondendo seu interesse nas riquezas minerais e petrolíferas do país, tampouco sua intenção de reabrir espaço para as empresas americanas. Ao afirmar que a riqueza extraída beneficiará também os Estados Unidos “na forma de compensação”, o presidente americano revela uma visão patrimonial das relações internacionais, onde territórios instáveis se tornam ativos a serem administrados por quem detém poder militar. Essa lógica, aliás, não se restringe ao sul; Trump almeja anexar a Groenlândia e ameaça o México e o Canadá.
As Consequências a Longo Prazo
Num curto prazo, Trump exibe uma força aparentemente irresistível, mas os ciclos históricos mostram um cenário diferente: no Iraque e no Afeganistão, as vitórias militares rápidas resultaram em derrotas políticas duradouras. O Haiti, na América Latina, serve de alerta: a imposição de uma mudança de regime a partir de fora levou a décadas de colapso. A Venezuela, com suas milícias, redes criminosas e a presença de grupos armados transnacionais, apresenta riscos semelhantes de caos, com repercussões para a Colômbia, o Brasil, a Guiana e o Caribe.
A conclusão sobre o julgamento de Maduro se distancia da ideia de justiça e se aproxima de uma demonstração de hegemonia. Trump deixa claro que os EUA estão decidindo as regras do jogo no Hemisfério Ocidental e estão prontos para transformar essa região em um espaço de segurança e exploração econômica sob tutela americana. Embora essa estratégia possa trazer ganhos táticos e aplausos locais, representa um erro estratégico: fragiliza o direito internacional, amplifica a instabilidade regional e convida outras potências a adotarem métodos semelhantes para manter ou expandir suas áreas de influência. É como se estivéssemos testemunhando uma nova divisão do mundo, sem a conferência de Yalta. Assim, Trump inaugura um novo ciclo de turbulência, tratando o continente como uma propriedade geopolítica. Historicamente, esse tipo de abordagem nunca obteve sucesso.
