Uma Experiência de Fé e Arte
A Semana Santa é marcada por rituais profundos, e a Sexta-feira da Paixão, dedicada à reflexão sobre a morte de Jesus Cristo, se destaca com a poderosa representação da Via Sacra. Em Minas Gerais, essa tradição, composta por 14 passos, carrega uma profunda carga histórica e artística, que dialoga com o presente de forma vibrante.
De acordo com Martinho Alves da Costa Junior, professor de História da Arte e Cultura na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a arte sacra serve como um dos principais veículos de transmissão da experiência religiosa ao longo dos séculos. Ele destaca que a Via Sacra, que medita sobre a paixão, morte e ressurreição de Cristo, é uma construção coletiva da memória cristã, unindo imagens, objetos e espaços que reavivam o passado e fortalecem a fé contemporânea.
“Essa prática organiza a experiência de maneira única. Cada estação, representada por uma imagem, é um convite à meditação e interiorização. O fiel percorre essas etapas como uma peregrinação simbólica, reconstituindo o caminho da Paixão. A arte, nesse contexto, se torna parte de um sistema complexo que une gestos e orienta olhares, inscrevendo o rito em uma cadeia de memória que atravessa gerações”, explica o professor.
A Devoção Mineira: Entre História e Modernidade
Em Minas Gerais, a arte sacra ocupa um lugar de destaque porque preserva formas de devoção e educa o olhar do fiel, organizando rituais e ancorando a religiosidade por meio de imagens e percursos que se transmitem por gerações. Martinho enfatiza que a Via Crucis desempenha um papel fundamental nesse contexto.
O estado é famoso por suas igrejas barrocas e históricas, e a arte da Via Sacra está entrelaçada à história mineira por três caminhos principais: devoção, urbanismo religioso e patrimônio. Em São João del-Rei, por exemplo, a Paixão de Cristo se materializa em altares, capelas, procissões e itinerários que transformam a cidade em um cenário sagrado durante a Quaresma e a Semana Santa. “O fiel revive mentalmente o caminho do Calvário, seja dentro da igreja ou pelas ruas”, detalha.
Além de exemplos históricos, a modernidade também está presente, como na Via Sacra de Portinari, localizada na Pampulha, em Belo Horizonte. Integrando-se ao conjunto arquitetônico de Oscar Niemeyer, essa Via Sacra assume uma configuração modernista. “Portinari utiliza as curvas da Pampulha para recriar o cenário da própria Paixão, fazendo com que a Via Sacra dialogue com a história da arte moderna brasileira e com o patrimônio cultural reconhecido globalmente”, destaca.
Locais de devoção ganham destaque, como Congonhas, com o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, que abriga sete capelas com os Passos da Paixão e esculturas policromadas atribuídas a Aleijadinho. Em São João del-Rei, a procissão do Enterro e a atuação da Irmandade do Senhor dos Passos também são exemplos dessa rica tradição.
Martinho ainda menciona Ouro Preto e suas representações da Paixão de Cristo durante a Semana Santa, além de Diamantina, onde a encenação da Via Sacra se mantém viva. “Em Minas Gerais, essa cultura é profundamente enraizada, manifestando-se como uma parte indissociável de sua história”, conclui.
A Via Sacra em Juiz de Fora e na Zona da Mata
Em Juiz de Fora, o Morro do Cristo se destaca como um ponto de devoção e peregrinação, que faz parte da programação oficial da Semana Santa da Arquidiocese da cidade, embora neste ano não tenha acontecido devido às chuvas. O artista local Yure Mendes contribuiu com obras em ferro que ilustram as 14 estações da Via Sacra até o alto do morro, servindo como pontos de reflexão durante as peregrinações.
Essas obras foram inauguradas em 2008, resultado da idealização de Neiva Rocha de Souza, que se dedicou pessoalmente à arrecadação para o projeto, originado de um sonho. Yure menciona que o espaço foi concebido para que as obras se integrassem à paisagem, respeitando a natureza local e sem alterar a vegetação. “A fé é sutil”, define o artista.
Atualmente, a Via Sacra do Morro do Cristo passa por um novo projeto de revitalização e restauração, já que as obras, que se mesclam à natureza, sofreram degradação ao longo dos anos.
Na Zona da Mata, a presença da Via Sacra se estende por diversos municípios como Bicas, Tocantins, Manhuaçu e Miraí, onde procissões, encenações da Paixão e a construção efêmera de cenários são comuns. Piedade de Cima, distrito de Ubá, também preserva as Charolas de Nosso Senhor dos Passos, um bem cultural ligado ao período quaresmal.
