VPN: Uma Necessidade no Cotidiano dos Brasileiros na Rússia
Recentemente, a Rússia anunciou o bloqueio total do WhatsApp e começou a restringir o Telegram, gerando preocupações sobre a liberdade de expressão no país. Apesar das restrições, brasileiros que vivem na Rússia já estão habituados a utilizar redes privadas virtuais (VPN) para driblar esses obstáculos.
Paola Loureiro, de 25 anos, natural de Minas Gerais, destaca a importância das VPNs em sua vida diária. “É algo essencial aqui. Não dá para viver sem VPN”, afirma a estudante de mestrado em linguística, que reside em Moscou há mais de dois anos. Ela prefere não revelar o nome da sua instituição por receio de possíveis retaliações.
A sigla VPN refere-se a uma rede privada virtual, que cria um túnel criptografado na internet, ocultando a localização do usuário e permitindo o acesso a serviços bloqueados pelo governo. Originalmente, essa tecnologia foi desenvolvida para que funcionários acessassem informações empresariais de forma segura, mas hoje, sua utilização se expandiu significativamente.
Desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022, a Rússia já havia bloqueado plataformas como Instagram e Facebook, classificando a Meta, empresa dona dessas redes, como extremista. Paola relata que, desde então, a maioria dos brasileiros e russos que conhece adotou o uso de VPNs.
Ela começou usando uma versão gratuita, que logo revelou-se instável e insatisfatória. “Depois que a Rússia implementou restrições às chamadas de voz e vídeo no WhatsApp e Telegram, decidi investir em uma solução mais eficaz”, explica. Hoje, ela paga cerca de R$ 10 por mês e mantém contato diário com sua família no Brasil através do WhatsApp.
Atualmente, aproximadamente 100 milhões de pessoas utilizam o WhatsApp na Rússia, conforme informações da Meta.
Paola explica que o processo de usar uma VPN é simples: basta baixar o aplicativo e mantê-lo ativo. No entanto, ela observa que a instabilidade se torna um incômodo, já que o governo frequentemente bloqueia serviços de VPN, exigindo que os usuários busquem alternativas. “Links para novos serviços costumam circular no Telegram, mas é um incômodo”, desabafa.
Além disso, manter a VPN ativa pode resultar em maior consumo da bateria do telefone, e, embora as versões pagas sejam mais confiáveis, elas também podem apresentar falhas.
Clarissa e a Adaptação às Restrições
Clarissa Ribeiro, também de 25 anos e oriunda de Pernambuco, se mudou para a Rússia há cerca de dois anos para estudar veterinária. Assim como Paola, ela adotou o uso de VPN desde sua chegada, mas optou por uma versão paga em dezembro de 2025 para garantir uma conexão mais estável.
Curiosamente, Clarissa não percebeu a mudança provocada pelo bloqueio total do WhatsApp anunciado recentemente. Para testar, ela desativou sua VPN e tentou enviar uma mensagem, que não chegou. Após reativar o serviço, a mensagem foi entregue instantaneamente. “Então, realmente o WhatsApp parou de funcionar sem a VPN”, constatou.
A respeito do Telegram, ambas as jovens afirmam que ainda é possível enviar e receber mensagens, mas notaram que o serviço estava mais lento. Entretanto, Instagram e Facebook continuam inacessíveis sem o uso de VPN.
Max: O Aplicativo Proposto pelo Governo
Paralelamente às restrições, o governo russo promove o uso do aplicativo Max, inspirado no WeChat, que permite comunicação e acesso a serviços governamentais. No entanto, diferentemente do WhatsApp, o Max não oferece criptografia, o que levanta preocupações sobre a privacidade das mensagens, conforme reportado pelo Financial Times. O governo russo nega qualquer acusação relacionada à violação de privacidade.
Devido a essas preocupações, Paola e seus amigos evitam o uso do Max, que é mais popular entre pessoas mais velhas e menos familiarizadas com VPNs. Ambas já enfrentaram pressão de suas universidades para instalar o aplicativo. Clarissa compartilha que, em dezembro de 2025, alunos foram avisados de que a instalação do Max seria obrigatória para participar das provas de janeiro.
A mensagem afirmava que, sem a conexão ao Max, os estudantes não teriam autorização para fazer os exames, conforme comunicado repassado por um representante da sala através do Telegram. No entanto, Clarissa destacou que ignorou a pressão e conseguiu realizar suas provas normalmente.
