Impactos Diretos da Guerra no Preço do Petróleo
A escalada do conflito no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz já estão afetando significativamente o bolso do brasileiro. O preço do barril de petróleo atingiu a marca de US$ 115 nesta quinta-feira (19), contribuindo para o aumento nos preços dos combustíveis e da energia elétrica.
Nas últimas semanas, o preço médio do litro do diesel nos postos de combustíveis brasileiros teve um aumento superior a 11%, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), passando de R$ 6,08 para R$ 6,80. O diesel é um insumo essencial para a logística nacional, e a alta de seu preço impacta diretamente a cadeia produtiva, afetando desde caminhoneiros até o custo de alimentos e serviços.
Especialistas consultados afirmam que essa pressão sobre a inflação pode começar a ser sentida em um prazo de até um mês, dependendo da duração e intensidade do conflito no Oriente Médio. Segundo o economista Fábio Romão, sócio da Logos Economia, os aumentos indiretos resultantes da alta do diesel podem elevar a inflação em até 0,11 ponto percentual até 2026. “O primeiro impacto, mais imediato, será o aumento no preço do diesel já neste mês. Os efeitos indiretos se espalharão ao longo dos próximos meses”, explica Romão.
Influências do Dólar e Custos de Produção
Outro fator que tem pressionado os preços é a valorização do dólar, que alcançou R$ 5,26, representando uma alta de 2,5% desde o início do conflito. Em tempos de incerteza geopolítica, investidores costumam buscar ativos mais seguros, como a moeda americana, o que intensifica sua demanda e, consequentemente, sua cotação.
Um dólar mais caro onera produtos importados e aqueles que, apesar de serem produzidos no Brasil, têm seu preço atrelado ao mercado internacional, como combustíveis e uma série de commodities. Isso gera um efeito cascata nos custos das empresas, que acabam repassando esses aumentos ao consumidor final, pressionando ainda mais a inflação.
O Petróleo e Seus Efeitos em Cadeia
Desde o início dos ataques dos EUA e de Israel ao Irã, o aumento do preço do petróleo no mercado global tem sido significativo. Em comparação com o final de 2025, quando a commodity estava cotada a US$ 60, o valor praticamente dobrou. “Quanto maior a duração do conflito e maior o comprometimento do fluxo mundial de petróleo, maior será a tendência de alta nos preços do barril”, destaca André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
O petróleo é fundamental para a produção de combustíveis como gasolina, diesel, querosene de aviação e gás de cozinha, além de servir como matéria-prima para diversos insumos, incluindo plásticos e fertilizantes. Isso gera um efeito em cadeia que pressiona os custos de produção e a logística, especialmente no setor agrícola.
A alta no preço do diesel, por exemplo, tende a aumentar o custo do frete rodoviário, refletindo nos preços de produtos que são transportados por estrada. “Além disso, a gasolina tem um papel relevante na inflação, representando cerca de 5% do IPCA”, afirma o especialista.
O agronegócio também sente o impacto, enfrentando aumento nos custos operacionais das máquinas agrícolas e no preço dos fertilizantes químicos, que são importados, em sua maioria, do Irã. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que adubos e fertilizantes químicos representaram 93,5% das importações brasileiras provenientes do Irã em janeiro deste ano.
Impactos na Política Monetária e Juros
A pressão inflacionária resultante do aumento nos custos também influencia diretamente a política monetária do Brasil. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu a taxa básica de juros de 15% para 14,75% ao ano nesta quarta-feira, o primeiro corte desde maio de 2024. No entanto, a instabilidade causada pela guerra no Oriente Médio não permite previsões claras sobre novos cortes.
No comunicado, o BC reiterou que a guerra afeta a cadeia global de suprimentos e, por consequência, os preços das commodities, influenciando a inflação nacional. “Os riscos para a inflação, tanto para alta quanto para baixa, se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio”, destacou o Copom.
Juros mais altos tendem a encarecer o crédito, impactando diretamente as famílias e empresas, que podem reduzir seu consumo e investimento. Nesse cenário de incerteza, o Banco Central deve acompanhar de perto as evoluções do conflito para ajustar sua política monetária de acordo com a nova realidade econômica.
