O desafio do fim do ICMS para a cultura mineira
Minas Gerais enfrenta um momento crucial para sua política cultural. A cultura do estado ainda depende fortemente do ICMS, um tributo que será extinto a partir de 2033, conforme definido na reforma do consumo. Esse imposto não é apenas uma sigla: ele sustenta hoje uma complexa engenharia de financiamento que viabiliza programas, políticas públicas e restaurações essenciais para o setor.
Dois instrumentos fundamentais dependem diretamente do ICMS: a Lei Estadual de Incentivo à Cultura, que funciona por meio da renúncia fiscal, e o ICMS Patrimônio Cultural, que há anos incentiva municípios a conservarem seus acervos históricos. Ambos estão ameaçados pela transição prevista, o que exige uma postura proativa do poder público para evitar o improviso.
Problemas atuais e a necessidade de planejamento
O impacto da dependência do ICMS já é sentido hoje. O acesso aos recursos culturais é dificultado em muitas regiões do interior, enquanto a concentração desses recursos em áreas específicas reforça desigualdades territoriais. A falta de previsibilidade no financiamento cultural provoca ciclos de criação e abandono, com obras que surgem e depois se deterioram, além de programas que começam, param e recomeçam.
O sistema, até aqui, tem funcionado muito mais por impulso e oportunidade do que por uma estrutura consolidada e planejada. Essa instabilidade desorganiza o setor, desestimula produtores culturais e impede que a cultura seja encarada como uma política de Estado permanente.
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Propostas para um novo modelo cultural em Minas Gerais
Para enfrentar esse cenário, Minas Gerais precisa construir um plano de transição que contemple o horizonte até 2033, articulando o setor cultural, a Secretaria de Fazenda, municípios e sociedade civil. Essa reorganização deve garantir estabilidade, previsibilidade e escala no financiamento da cultura.
O fortalecimento do fomento direto é um passo essencial, por meio de um Fundo Estadual de Cultura mais robusto, com critérios claros, distribuição territorial equilibrada e execução ágil. Isso assegura que recursos cheguem a quem hoje encontra dificuldades para acessar os mecanismos existentes.
Outra iniciativa importante é a criação de um fundo patrimonial para a cultura, que funcione como uma espécie de poupança pública. Com regras transparentes para preservar o capital e usar os rendimentos, esse fundo garantiria a manutenção contínua das obras, um dos maiores desafios atuais.
Parcerias e integração da cultura nas obras públicas
Além disso, estruturar parcerias com o setor privado, combinando doações, matchfunding e patronato, pode transformar o apoio cultural em um sistema contínuo e não pontual. Essa articulação amplia as fontes de financiamento e promove maior sustentabilidade para o setor.
Por fim, integrar a cultura desde o planejamento das grandes obras públicas — como escolas, hospitais e terminais — pode fortalecer a presença artística no cotidiano das cidades. Essa prática, já adotada em metrópoles como Nova York, Chicago e Seattle, traz arte ao espaço público como parte essencial do projeto urbano, e não como um complemento.
Construindo um futuro cultural sustentável para Minas Gerais
Cultura não é gasto eventual; é desenvolvimento social, econômico e territorial. Minas Gerais tem uma base cultural viva e diversa, espalhada por todo o estado, que representa não só patrimônio simbólico, mas uma potência real para a economia e identidade regional.
O caminho não está traçado e precisa ser construído com diálogo aberto entre artistas, coletivos, gestores, municípios e produtores culturais. O ICMS vai acabar, e a pergunta que fica é: que modelo vamos criar para substituir o atual? A hora de responder é agora, para garantir que a cultura mineira continue a florescer com sustentabilidade e alcance.
