A Ascensão da Direita e o Isolamento da Esquerda
A polarização política entre esquerda e direita tem se intensificado nas redes sociais, refletindo as tensões observadas nas manifestações e nas eleições. Embora Luiz Inácio Lula da Silva, a principal figura da esquerda brasileira, tenha conquistado a última corrida eleitoral, a direita, representada principalmente pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, demonstra maior eficácia nas batalhas digitais.
A análise é de Camilo Aggio, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD). Segundo Aggio, “a direita se apropriou de um discurso que historicamente era associado à esquerda, abordando temas como classe social e segurança pública. Em contrapartida, a esquerda parece estar em uma luta interna, focando em cancelamentos e em pautas identitárias, o que a torna menos coesa”.
O especialista critica a percepção da esquerda sobre a ascensão da direita nas redes sociais, que é frequentemente atribuída à propagação de desinformação e fake news. “A desinformação se espalha em um vazio de utopia. A direita e a extrema-direita compreenderam a lógica e a rotina de produção de conteúdo. Enquanto isso, a esquerda parece desarticulada, se concentrando em se autoengrandecer e atacar reputações, o que cria um ambiente de inimizade em vez de aliança”, afirma.
De acordo com Aggio, a esquerda excels em destruir reputações, frequentemente de seus próprios membros, o que inibe debates e desestimula o diálogo. “O que era contestação e rebeldia na esquerda agora se transferiu para a direita. O verdadeiro problema não são apenas as fake news ou os algoritmos, mas a falta de articulação e diálogo”, completa.
Estudo Revela o Impacto das Redes Sociais entre os Jovens
Um estudo conduzido por pesquisadores do InternetLab, Esther Solano, Thais Pavez e Camila Rocha, intitulado “Influenciadores, jovens e política na América Latina”, entrevistou 350 jovens de 16 a 24 anos na Argentina, Chile, Colômbia, México e Brasil, com o intuito de entender como essa faixa etária interage com influenciadores e avalia o uso político das redes sociais.
Os resultados revelam que a pandemia impulsionou significativamente o aumento do consumo de conteúdos online e a popularidade dos influenciadores. No Brasil, 75% dos jovens expressaram desejo de se tornarem influenciadores. O TikTok, em particular, se destacou como o principal canal para o consumo de conteúdos políticos entre os jovens, sendo frequentemente acessado de forma casual.
A pesquisa conclui que esse novo ecossistema de influenciadores facilita a transmissão de notícias políticas de um modo que é mais acessível e autêntico para a juventude. “O impacto é claro: a percepção de proximidade e autenticidade aumentam quando os jovens interagem com conteúdos mais simples e diretos”, destacam os pesquisadores.
Ise Luiza, estudante de Letras na UFMG e coordenadora-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE), relata que seu envolvimento político começou na adolescência, acompanhando sua família em eventos relacionados à prisão de Lula. “Decidi me filiar ao PSOL para me organizar politicamente e lutar por causas que acredito”, afirma.
Por outro lado, Rafael Pires de Menezes, de 19 anos, presidente do PL em Uberaba, destaca que sua trajetória política também se deu nas ruas, influenciado por seus pais. “Participei das manifestações pelo impeachment de Dilma em 2014. Desde então, busquei entender mais sobre política e me conectei com outros jovens por meio das redes sociais”, explica.
Patrick Cesário de Souza, que militou no PT desde os 17 anos, observa que o engajamento dos jovens se tornou mais virtual. “Hoje, a militância não é mais apenas em movimentos estudantis, mas nas redes sociais. O jovem politizado tende a ter um discurso mais liberal em questões econômicas, alinhando-se mais à direita”, pondera.
Maria Eduarda Galvão, de 19 anos, encontrou seu interesse político na candidatura de Jair Bolsonaro em 2018, estimulada por críticas de sua professora. “Decidi estudar para entender as divergências na política. Agora, uso as redes sociais para expressar minhas opiniões”, comenta.
Iniciativas dos Partidos para Reforçar a Comunicação Política
No final de 2022, o PT lançou um “Manual de Apoio aos Influenciadores e Ativistas Digitais”, que visa orientar membros que atuam na comunicação política. Henrique Lopes, influenciador que participou da elaboração do documento, afirma que a iniciativa surge como uma proteção para militantes diante das táticas de assédio judicial utilizadas pela extrema-direita.
Por sua vez, o PL tem investido em candidaturas jovens com forte presença nas redes sociais, buscando incluir pautas voltadas para a periferia e questões LGBT. Nomes como Rafael Itiê e Jéssica Ramos são apostas do partido para conectar-se melhor com esses grupos.
Em busca de fortalecer sua comunicação política, o PL promoveu um encontro com representantes de grandes plataformas digitais, contando com a presença de Jair Bolsonaro, para discutir estratégias e ampliar sua base no Congresso Nacional.
O Uso das Redes Sociais pelos Jovens
Os jovens utilizam diversas plataformas para se conectar com a política. No Instagram, por exemplo, o foco é visualizar fotos e histórias, enquanto o TikTok tem se destacado como uma ferramenta importante para acessar conteúdos políticos de forma mais dinâmica. O YouTube, por sua vez, é amplamente usado para consumir vídeos longos e explicativos, servindo como um canal de aprendizado e debate.
