Uma Reflexão sobre a Democracia e Abusos de Poder
O documentário ‘Esperança Equilibrista’ faz sua estreia nesta terça-feira, dia 17, no auditório da Reitoria da UFMG. A produção da TV UFMG é uma revisitação de um dos capítulos mais sombrios da história da universidade, marcado pela operação da Polícia Federal que, em 6 de dezembro de 2017, conduziu coercitivamente gestores da instituição sob a alegação de investigar supostas irregularidades relacionadas ao Projeto Memorial da Anistia Política do Brasil.
A exibição, que começa às 19h, é aberta à comunidade universitária e promete ser um espaço de reflexão. Após o filme, uma mesa-redonda reunirá especialistas e protagonistas da história para discutir as implicações do documentário, os desdobramentos da operação e o contexto histórico que a motivou. Vale lembrar que ações semelhantes afetaram outras instituições de ensino, como a operação Ouvidos Moucos, que culminou na trágica morte do então reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier. O evento contará com a presença de Acioli Cancellier de Olivo, irmão do ex-reitor, além da reitora Sandra Regina Goulart e do presidente da Fundep, Jaime Arturo Ramirez, que também foi reitor na época dos acontecimentos.
Referências a um Passado Difícil
O título ‘Esperança Equilibrista’ faz alusão à operação que forçou gestores da UFMG a depor na sede da PF em Belo Horizonte. O nome se inspira, ironicamente, na música ‘O Bêbado e a Equilibrista’, de João Bosco e Aldir Blanc, um hino da anistia política no Brasil. O uso desse trecho gerou protestos, especialmente do próprio João Bosco, que se manifestou publicamente contra o uso de sua canção em um contexto que, segundo ele, trai os ideais de liberdade. Em uma das passagens emocionantes do documentário, o compositor lê sua nota de repúdio, enfatizando a gravidade da situação.
Com duração de 90 minutos, o filme traz relatos de diversos protagonistas, como Jaime Ramírez e Sandra Goulart Almeida, que oferecem suas perspectivas sobre os eventos daquele dia. Juristas e cientistas políticos ouvidos na produção classificam a operação como ilegal e arbitrária. A professora Marjorie Marona, do Departamento de Estudos Políticos da UniRio, afirma: “Nenhuma das pessoas levadas à força apresentava risco de fuga. Não havia indícios de obstrução ao processo investigativo, e elas estavam dispostas a colaborar, embora não tenham sido notificadas previamente para isso”. A docente, que possui doutorado em Ciência Política e mestrado em Direito pela UFMG, acrescenta que as condições legais para tal operação não estavam presentes.
Um Grande Aparelho em Ação
A operação da PF não se restringiu apenas às conduções coercitivas, mas também mobilizou uma equipe extensa que incluía policiais federais e auditores da Controladoria-Geral da União (CGU) e do Tribunal de Contas da União (TCU). Durante o evento, Fernando Jayme, professor da Faculdade de Direito, recorda: “Jamais se cogitou resistir à ordem da autoridade, mesmo diante de abusos”. Ele critica o uso de tantos recursos, afirmando que é um desperdício de dinheiro público, evidenciando a gravidade do que ocorreu naquele dia.
Em junho de 2020, o Ministério Público Federal (MPF) em Minas Gerais concluiu que não havia evidências de crimes cometidos pela PF, solicitando o arquivamento da investigação. Essa decisão foi confirmada pela quinta Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, que também encerrou o inquérito civil que averiguava supostas irregularidades no Memorial da Anistia.
O documentário inclui imagens do dia da operação, que também evidenciam a mobilização da comunidade universitária em apoio aos dirigentes da UFMG. Uma manifestação simbólica, onde centenas de pessoas se reuniram em um abraço coletivo em frente à Reitoria, destaca a solidariedade dos estudantes e funcionários da universidade.
Entre os entrevistados, estão o ministro aposentado do STF Marco Aurélio Mello e Acioli Cancellier de Olivo, irmão do ex-reitor da UFSC. A direção e produção do documentário ficam por conta dos jornalistas Olívia Resende e Tiago de Holanda, que também assina o roteiro.
Além da exibição na UFMG, o documentário será apresentado em Brasília no próximo dia 24, em um evento promovido pela Associação Nacional dos Dirigentes do Ensino Superior (Andifes).
