Desavenças e a Crise no INSS
O ex-presidente do INSS, Gilberto Waller, dispensado recentemente, afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca expressou preocupação com a fila de requerimentos de benefícios da instituição, frequentemente criticada por seu congestionamento. Waller foi demitido menos de um ano após assumir a presidência do INSS, em meio a uma crise relacionada a descontos irregulares sobre aposentadorias.
Em entrevista ao GLOBO, o ex-presidente do INSS destacou que sua gestão conseguiu reduzir o estoque de pedidos, ressaltando que a maioria dos casos pendentes estava ligada à perícia médica, responsabilidade do Ministério da Previdência, liderado por Wolney Queiroz. Este foi responsável pela decisão de afastá-lo do cargo na última segunda-feira.
Para Waller, a alegação de que a fila foi o motivo de sua demissão é apenas uma justificativa. Ele acredita que a verdadeira razão está nas desavenças com o ministro Queiroz, que, segundo ele, já havia solicitado ao presidente Lula a indicação de outro nome para a presidência do INSS. O ex-presidente do órgão e Queiroz nunca mantiveram uma relação harmoniosa desde o início, o que agravou ainda mais a situação.
Entendendo a Demissão e o Contexto
Waller, que também é procurador federal e já atuou como ouvidor-geral da União, assumiu o cargo no INSS a pedido do presidente Lula como resposta às investigações sobre os descontos indevidos. Sua gestão, no entanto, esbarrou na crescente fila de pedidos de benefícios, que se tornou um problema eleitoral para o governo, especialmente após a crise dos descontos fraudulentos.
Discussões recentes revelaram que o ministro da Previdência atribuiu a Waller a responsabilidade pela fila, mas o ex-presidente argumenta que o aumento nas solicitações era uma realidade que precisava ser enfrentada. A produção diária de requerimentos atingiu cerca de 61 mil, e a equipe de Waller adotou medidas para refrescar a fila ao zerar os pedidos antigos que não dependiam de perícia médica.
Ao ser questionado sobre sua demissão, Waller confirmou que a situação foi uma consequência de desavenças pessoais com Queiroz. Ele admitiu que a falta de entendimento entre eles contribuiu para a decisão do ministro.
Expectativas e Planos Futuros
Diante da pergunta sobre sua saída, Waller disse que não guarda mágoas. Segundo ele, a presidência do INSS nunca foi um objetivo, especialmente em um momento crítico para a entidade. Ele explicou que a fila de requerimentos não era seu único desafio, já que outras questões, como os descontos associativos e a responsabilidade por fraudes em contratos, também demandavam atenção.
O ex-presidente do INSS traçou metas ousadas para a redução da fila, prevendo que até dezembro o número de pedidos pendentes não ultrapassasse 1,3 milhão. Em março, a gestão de Waller conseguiu reduzir a fila em 400 mil, e na primeira semana de abril, mais 50 mil pedidos foram atendidos, apesar do feriado da Páscoa.
Questionado se o presidente Lula havia manifestado alguma preocupação quanto à fila de benefícios, Waller foi enfático: “Não, nunca.” Ele destacou que, ao assumir o cargo, recebeu liberdade para agir sem a intervenção do ministério, o que permitiu mudanças significativas nos processos internos.
Desafios da Nova Gestão e Riscos Futuros
No entanto, Waller expressou preocupação com a possibilidade de que sua saída leve a um loteamento político do INSS. Ele mencionou que a instituição lida com um orçamento significativo, com pagamentos que ultrapassam R$ 1 trilhão ao ano e uma folha mensal alta, o que poderia ser um convite a práticas inadequadas caso houvesse trocas excessivas de pessoal nas áreas sensíveis.
Com a iminência de novas demissões em setores críticos, como na Diretoria de Benefícios e na Procuradoria, Waller advertiu que a troca de profissionais altamente qualificados poderia ser prejudicial não apenas para o INSS, mas para a gestão pública como um todo. Para ele, a continuidade de pessoas comprometidas e competentes é essencial em momentos de crise.
