Plataforma Inovadora para Atendimento Rápido
No Brasil, uma nova plataforma gratuita chamada “SoroJá” está transformando a forma como vítimas de acidentes com animais peçonhentos recebem atendimento. Essa ferramenta, acessível tanto por navegadores quanto por dispositivos móveis, elimina a necessidade de cadastro ou login, permitindo que o usuário encontre rapidamente os hospitais habilitados para armazenar e aplicar soros antiveneno, dependendo do tipo de acidente ocorrido e da localização do usuário.
A proposta é diminuir o tempo entre a picada e o atendimento, um fator crucial para prevenir complicações graves ou até mortes. A ideia partiu do empresário Eduardo Cruz, de São Paulo, que se inspirou na trágica história de Bernardo de Lima Mendes, uma criança de apenas 3 anos que faleceu após ser picada por um escorpião, tendo recebido o soro antiescorpiônico mais de quatro horas depois do acidente. Dados do Instituto Butantan, responsável pela distribuição de soros ao Sistema Único de Saúde (SUS), ressaltam que a aplicação deve ser feita o quanto antes.
Em entrevista ao portal g1, o pai de Bernardo compartilhou sua experiência de demora na identificação da gravidade do caso e no atendimento inicial no Hospital e Maternidade Madre Vannini, em Conchal (SP). A Polícia Civil iniciou uma investigação para apurar possíveis falhas no atendimento.
Funcionamento da Plataforma
Eduardo, que é pai de dois filhos, de 4 e 6 anos, admite que não possui formação em tecnologia, mas conseguiu desenvolver a programação da plataforma com o auxílio do Claude Code, um assistente de codificação com inteligência artificial. O sistema é fundamentado em dados do Ministério da Saúde, que mapeia os Pontos Estratégicos de Soro Antiveneno (Pesa), uma rede composta por hospitais que são referência no atendimento a esses casos.
“Desde o lançamento do projeto, há uma semana, tenho recebido retornos de várias partes do país. Algumas mensagens apontam desatualizações nos dados do governo, o que reforça a necessidade de uma fonte confiável e atualizada, principalmente em situações de emergência, onde cada minuto é precioso”, explica Eduardo.
É importante ressaltar que a plataforma não substitui a avaliação médica. A decisão sobre o uso do soro antiveneno deve ser tomada pela equipe de saúde que atende a vítima. Eduardo também recomenda que as pessoas consultem os Centros de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox), que estão disponíveis em quase todos os estados com atendimento 24 horas.
“No futuro, pretendo oferecer o projeto ao governo ou ao CIATox, ou a qualquer órgão que se comprometa a manter a base de dados sempre atualizada”, acrescenta.
Tipos de Acidentes e Soros Disponíveis
Embora os acidentes com escorpiões tenham aumentado, especialmente em áreas urbanas, a plataforma SoroJá também abrange outros tipos de acidentes com animais peçonhentos, como cobras, aranhas e lagartas. É fundamental saber quais hospitais dispõem de cada antiveneno, visto que nem todas as unidades de saúde oferecem todos os tipos de soros.
Os principais soros disponíveis incluem:
- Picada de cobra: soro botrópico (jararaca e urutu), crotálico (cascavel), laquético (surucucu) e elapídico (coral verdadeira).
- Picada de escorpião: soro antiescorpiônico.
- Picada de aranha: soro antiaracnídico, que inclui fonêutrico (armadeira) e loxoscélico (aranha-marrom).
- Contato com taturana: soro antilonômico.
Dados sobre Acidentes em Minas Gerais
Em 2025, Minas Gerais registrou quase 60 mil ocorrências envolvendo escorpiões, serpentes, aranhas, lagartas, abelhas e outros animais. O Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, contabilizou, no último ano, 4.239 atendimentos relacionados a acidentes com animais peçonhentos, sem incluir picadas de abelhas. Desse total:
- 2.028 foram causados por escorpiões.
- 1.015 por aranhas.
- 751 por serpentes.
- 445 por lagartas.
A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) atualiza semanalmente em seu site um relatório sobre soros, destinado a profissionais da saúde e agentes de emergência. De acordo com a mais recente atualização, de 17 deste mês, Belo Horizonte já aplicou:
- 382 soros antirrábico (para prevenção da raiva).
- 362 soros aticrotálico (para neutralização do veneno da cascavel).
- 240 soros antibotrópico (para neutralização do veneno de serpentes do gênero Bothrops).
- 187 soros antiescorpiônico (para neutralização do veneno de escorpiões do gênero Tityus).
- 185 soros antiaracnídico (para tratamento de acidentes moderados a graves causados por aranhas).
- 60 soros antielapídico (para neutralização do veneno de serpentes do gênero Micrurus).
- 53 Imunoglobulina antirrábica (para prevenção da raiva).
- 25 soros antilonômico (para tratar envenenamentos por contato com taturanas).
Orientações de Primeiros Socorros
A infectologista Mirian Dal Ben, do Hospital Sírio-Libanês, destaca a importância de manter a calma após uma picada. A primeira medida a ser tomada é lavar o local da picada com água e sabão. “Jamais utilize torniquete, amarre o membro afetado ou tente chupar o veneno, pois essas ações podem agravar a situação. Se for aplicar uma compressa, que seja morna, para aliviar a dor”, aconselha.
Outra recomendação é, sempre que possível, fotografar o animal de diferentes ângulos para auxiliar na identificação. Em seguida, a vítima deve buscar atendimento médico imediatamente, levando-a ao hospital ou acionando o Samu pelo telefone 192, ou o Corpo de Bombeiros pelo 193.
