Um Talento Revelado pela Música
A jornada de Luis-Felipe Sousa no mundo da ópera começou de forma inusitada, com a descoberta de um CD de ópera por sua avó, quando ele tinha entre 12 e 13 anos. Antes disso, a sua experiência musical era restrita a modões sertanejos, MPB e músicas pop no rádio. Ao ouvir as árias clássicas, o jovem ficou fascinado e começou a imitar o estilo pomposo de canto. A avó, percebendo o talento do neto, fez uma previsão positiva sobre seu futuro na música: “Olha que você terá um futuro nisso aí, hein”. A previsão se concretizou na última sexta-feira, 26 de setembro de 2023, quando Luis-Felipe, agora com 28 anos, se tornou o primeiro brasileiro a ganhar o prestigiado prêmio da Associação para a Promoção da Ópera de Paris (AROP).
Esse prêmio reconhece sua atuação nas temporadas de 2024 e 2025 em espetáculos organizados pela Academia da Ópera de Paris, instituição que se destaca na Europa por sua dedicação ao canto lírico e é considerada a segunda maior do mundo, perdendo apenas para a Metropolitan Opera de Nova York.
Um Ambiente Favorável ao Talento
Desde 2023, Luis-Felipe está em Paris, participando de um programa de residência profissional no instituto, que é conhecido por sua produção de espetáculos, incluindo cenários e figurinos. Ele descreve o local como uma verdadeira “fábrica de óperas”, que anualmente seleciona pouco mais de dez cantores entre mais de 500 candidatos de todo o mundo. “Foi aquele CD singelo que direcionou toda a minha vida e me abriu para um universo novo”, reflete. Para ele, a ópera é o que o motiva diariamente, mesmo longe de sua família. “Se não fosse uma coisa tão simples e corriqueira… Um CD! Não tem como não ficar emocionado ao pensar nisso”, diz ele.
Com uma abordagem modesta, Luis-Felipe atribui seu sucesso à sorte e ao fato de ter estado “no lugar certo na hora certa”. Ele destaca a importância de sua formação em Ribeirão Preto, onde se localiza a sede da companhia de música Minaz, que há mais de 30 anos promove a ópera através de corais infantojuvenis. Além disso, a cidade abriga um campus da Universidade de São Paulo (USP), que oferece um curso de música com foco em canto e arte lírica. Esse contexto, que ele considera raro no Brasil, fez com que ele pudesse desenvolver sua carreira sem sair de casa.
A Busca por Renovação no Canto Lírico
Luis-Felipe, que é o primeiro artista de sua família de educadores, acredita que o Brasil possui um grande potencial na área do canto lírico. “Mas é preciso uma renovação, e não apenas no sentido de criar novas óperas. Precisamos encontrar maneiras de atrair um novo público”, afirma. Ele ressalta a importância de ter acesso a óperas traduzidas para o português durante sua adolescência, o que facilitou seu entendimento e apreciação do gênero, uma experiência que ele reconhece como fundamental.
O cantor critica a tradição de encenar óperas em seus idiomas originais, o que, segundo ele, pode afastar potenciais apreciadores. Ele defende que operas devem ser acessíveis e compreensíveis para o público. “Precisamos rever essa regra, que pode ser uma barreira para aqueles que não estão acostumados a assistir a espetáculos em outros idiomas”, sugere.
Uma Década de Conquistas
Em 2026, Luis-Felipe comemorará uma década de sua primeira apresentação como solista no Teatro Minaz, em Ribeirão Preto. Essa data é simbólica, especialmente considerando que nos últimos anos ele se apresentou na imponente Ópera da Bastilha, em Paris, em montagens como “L’enfant et les sortilèges”, de Ravel, e “Les brigands”, de Jacques Offenbach. “Saí de um teatro de 300 lugares para uma casa com quase três mil assentos. Isso, por si só, é um baita aprendizado”, reflete.
Com destaque no cenário operístico europeu, Luis-Felipe espera que mais brasileiros sigam seu caminho. Ele menciona que, até agora, apenas três colegas já passaram pela Ópera de Paris. “O Brasil tem muito talento, mas muitos artistas acabam buscando oportunidades fora do país. Faz parte da minha missão não abandonar minhas raízes. Sou filho do interior e quero ajudar a trazer mais pessoas para o cenário da ópera”, afirma.
Ele acredita que a divulgação desse gênero é crucial para atrair novos admiradores. “Quanto mais pessoas conhecerem a ópera, mais elas se interessarão. Foi assim que meu amor pela ópera começou, com um simples CD que minha avó ganhou. E hoje, essa arte que me move é o que me impulsiona em busca de um futuro melhor”, conclui.
