Denúncias sobre Interferências na Lista Suja
No dia 12 de maio de 2026, durante uma audiência da Comissão de direitos humanos da Câmara dos Deputados, especialistas levantaram sérias preocupações sobre a interferência política na chamada “lista suja”, um cadastro que identifica empresas envolvidas em práticas de trabalho escravo. Essa lista tem sido uma ferramenta crucial na luta contra a exploração laboral no Brasil, mas, segundo os especialistas, está perdendo sua credibilidade devido a decisões políticas que podem beneficiar empresas.
Desde 2003, mais de 65 mil trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em território brasileiro. O juiz do trabalho, Leonardo de Moura Landulfo, que também atua como diretor de Assuntos Legislativos da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, destacou que, somente no último ano, cerca de 2.700 trabalhadores foram retirados dessas condições. Essas estatísticas impressionantes ressaltam a gravidade do problema no Brasil.
Eduardo Reiner, representante da Associação Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho, declarou que a lista suja está em risco de perder sua relevância. “A partir do momento em que uma empresa, devido ao seu poder econômico e capacidade de influenciar decisões, pode ser retirada da lista com base em critérios que não são técnicos, perdemos um importante mecanismo de combate ao trabalho escravo”, afirmou.
Críticas à Interferência Política
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A gerente de Educação e Políticas Públicas da ONG Repórter Brasil, Natália Suzuki, também expressou críticas em relação a possíveis interferências políticas do Ministério do Trabalho na manutenção da lista. Segundo Suzuki, o cadastro deve seguir critérios técnicos rigorosos, garantindo aos acusados o direito à ampla defesa. Ela ressaltou que, até recentemente, não havia registros de intervenção política no conteúdo da lista, mas o cenário mudou drasticamente.
“No ano passado, pela primeira vez, o ministro do Trabalho tomou a decisão de retirar três empresas da lista suja com base em avaliações políticas”, revelou. Atualmente, a versão mais recente da lista, mantida pelo Ministério do Trabalho, contém 612 nomes, tanto de pessoas físicas quanto jurídicas.
Notadamente, a montadora chinesa BYD foi incluída na lista, mas conseguiu removê-la após uma decisão judicial. A exoneração do secretário responsável pela área ocorreu logo após a inclusão da empresa, o que gerou críticas e especulações sobre o real motivo da demissão. O ministério, por sua vez, comunicou que a exoneração foi um ato administrativo e que não tinha ligação com a lista.
Aumento dos Casos de Trabalho Escravo
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Dados da Repórter Brasil evidenciam que 5.444 pessoas foram resgatadas de situações de trabalho escravo entre 2016 e 2020. Nos cinco anos seguintes, esse número aumentou substancialmente, atingindo 12.665 casos entre 2021 e 2025. Essa tendência alarmante levanta questões sobre a eficácia das políticas públicas voltadas para a erradicação do trabalho escravo.
O coordenador-geral de Erradicação do Trabalho Escravo do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Day Carvalho Coelho, ressaltou que um dos principais desafios enfrentados é a integração das ações do governo federal com os estados e municípios, visando evitar que os trabalhadores resgatados retornem a situações de exploração. “Precisamos do apoio da assistência social em nível estadual e municipal para garantir a reintegração dessas pessoas”, enfatizou.
O vice-presidente da Associação Nacional dos Procuradores e das Procuradoras do Trabalho, Marcelo Crisanto, também adicionou informações importantes sobre a fiscalização deste tema. Entre 2023 e 2025, foram realizadas 674 operações de fiscalização, que resultaram no resgate de 6.205 trabalhadores. Durante o mesmo período, o Ministério Público do Trabalho firmou 859 termos de ajustamento de conduta, focando na correção de irregularidades com empregadores flagrados explorando mão de obra. Além disso, foram pagos R$ 26 milhões em danos morais individuais e R$ 39 milhões em danos morais coletivos.
Propostas para Combater o Trabalho Escravo
A discussão na Câmara não se limitou às denúncias. A coordenadora da clínica de trabalho escravo e tráfico de pessoas da Universidade Federal de Minas Gerais, Lívia Miraglia, defendeu a aprovação do Projeto de Lei 572/22, que visa responsabilizar empresas por trabalho escravo em suas cadeias produtivas. Esta proposta é vista como um passo importante em direção a uma maior responsabilidade corporativa.
Outro projeto relevante é o 5760/23, proposto por Reimont, que propõe medidas de proteção e acolhimento para pessoas resgatadas de situações análogas à escravidão, especialmente mulheres em situação de exploração doméstica. Esse projeto já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e agora aguarda votação no Senado.
No final da audiência, Reimont anunciou que enviará as conclusões do debate ao governo federal, destacando a necessidade de nomear novos auditores fiscais do trabalho e de assegurar que haja fim às interferências políticas na lista de infratores. A Comissão de Direitos Humanos continuará a discutir o tema, com mais participações previstas, inclusive de representantes do Ministério do Trabalho.
